O Xadrez Regulatório: Como a política molda setores e define o futuro das Relações Institucionais e Governamentais

O Xadrez Regulatório: Como a política molda setores e define o futuro das Relações Institucionais e Governamentais
Foto: Google Gemini

No Brasil, o cenário político e regulatório não é apenas um pano de fundo para a atividade empresarial; é o próprio tabuleiro onde se define a sobrevivência e o crescimento dos setores produtivos. Com uma economia em crescimento moderado, mas marcada por incertezas geopolíticas e eleições, a regulação assume papel central na mediação entre o interesse público e as estratégias corporativas.

A regulação, em sua essência, busca corrigir falhas de mercado, proteger consumidores e garantir a qualidade dos serviços. No entanto, ela também pode se tornar um instrumento de limitação da eficiência e da inovação quando mal planejada ou excessivamente burocrática. A transição ecológica e o avanço tecnológico em setores como data centers e energia renovável demonstram que novos marcos regulatórios (como o projeto “Redata” com R$ 5,2 bilhões em incentivos para 2026) são vitais para impulsionar investimentos.

O impacto regulatório é desigual entre setores. Enquanto setores de tecnologia recebem incentivos, outros podem enfrentar novas regras trabalhistas, como a negociação coletiva obrigatória para trabalho aos domingos, em vigor a partir de março. A política define quem ganha e quem perde, e a regulação materializa essas decisões. Um risco constante é a “captura” do regulador por interesses privados, onde a regra beneficia apenas o ente regulado em detrimento da sociedade.

Neste ambiente volátil, a atuação de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) deixou de ser apenas “trânsito” em Brasília para se tornar uma área de compliance estratégico. O profissional de RIG hoje é um analista de políticas públicas que atua de forma contínua, estruturando diálogos transparentes, diferentemente do lobby tradicional de foco pontual. A profissionalização da área é um pilar fundamental para construir relações mais justas e transparentes entre o setor privado e o setor público, tradicionalmente conhecido por ser “cinzento”.

O ano de 2026 se desenha com tensões entre o Executivo e o Legislativo, com o Congresso assumindo papel central na definição dos rumos regulatórios. Isso exige que as empresas tenham monitoramento legislativo e regulatório rigoroso de modo a antecipar mudanças e evitar surpresas. Faz-se imperioso um advocacy baseado em evidências, pois a construção de normas eficazes exige dados, não apenas influência, garantindo que o regulador tome decisões com custos razoáveis e impactos positivos.

Política e regulação são instrumentos de poder. O impacto nos setores é direto e profundo. Para as Relações Institucionais e Governamentais, o desafio neste ano é mover-se para além do lobby clássico, adotando uma postura de diálogo social e transparência, fundamental para a construção de um ambiente de negócios previsível e sustentável.

Envolta em uma espécie de elo vital, invisível e interdependente, a regulação é o coração das relações institucionais e governamentais. Na conjuntura atual, a política não se encerra nas urnas nem nos discursos de plenário. Para o setor privado e a sociedade civil, o verdadeiro “jogo” acontece no detalhe técnico: na regulação. É nela que as diretrizes políticas ganham corpo e impactam diretamente a viabilidade dos setores econômicos e a qualidade da atividade de RIG.

Como se a política fosse o vetor e a regulação o filtro. A política define a direção (o “quê”), mas é a regulação que estabelece a velocidade e as condições (o “como”). Quando um governo decide priorizar a transição energética, por exemplo, ele lança uma sinalização política. No entanto, sem agências reguladoras autônomas e marcos legais claros, o investimento trava.

O impacto nos setores é imediato: uma regulação confusa ou excessivamente ideológica gera insegurança jurídica, o que afasta o capital e sufoca a inovação. Por outro lado, uma regulação moderna e baseada em evidências atua como um catalisador de competitividade. Neste contexto, o profissional de RIG deixou de ser um mero “abridor de portas”. Hoje, sua função é ser um tradutor de complexidades. Ele precisa conectar os objetivos estratégicos de uma empresa com as necessidades técnicas do regulador e as agendas de curto prazo dos políticos.

A eficácia das relações institucionais e governamentais está intrinsecamente fulcrada em três pilares: i) antecipação – identificar mudanças regulatórias antes que se tornem leis engessadas; ii) dados e evidências – não se faz mais lobby apenas com networking; é preciso provar, com números, o impacto socioeconômico de cada decisão normativa; iii) diálogo multissetorial – regulação de um setor (como o digital) hoje transborda para outros (como o varejo e o financeiro), exigindo uma visão sistêmica.Logo, política e regulação são faces da mesma moeda. Enquanto a política lida com a legitimidade, a regulação lida com a previsibilidade. Em um mercado globalizado, o sucesso de um setor não depende apenas da sua produtividade interna, mas da sua capacidade de construir relações institucionais sólidas que garantam um ambiente regulatório equilibrado. Em última análise, uma boa regulação não é aquela que “controla”, mas aquela que oferece os trilhos para que o país possa correr com segurança.

*A opinião do autor desta coluna não necessariamente reflete a posição deste editorial. 

Por Daniel Duarte Lledó (Diretor de Relações e Institucionais e Governamentais & Políticas Públicas da DataPolicy)

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