Estamos em maio de 2026 e o cenário político brasileiro vive um momento de “tempestade perfeita” para quem analisa relações institucionais e governamentais (RIG). Com a proximidade das eleições presidenciais e um Congresso Nacional cada vez mais protagonista, o risco político deixou de ser uma variável abstrata para se tornar o centro das decisões corporativas. O nosso Parlamento detém um poder de veto inédito sobre o orçamento, o que muda completamente a forma como empresas e sociedade civil atuam na área de government affairs.
Como o controle do orçamento pelo Congresso (via emendas e protagonismo de agenda) altera esse universo de RIG em ano eleitoral? O governo federal enfrenta dificuldade para manter a coesão de políticas públicas de longo prazo, pois o “fisiologismo de sobrevivência” das bancadas foca em entregas imediatistas para a reeleição. Isso gera um risco político de descontinuidade administrativa e insegurança jurídica para setores regulados. Contudo, os profissionais de RIG são detentores de um papel relevante ante esse cenário e se veem cada vez mais compelidos a exercê-lo, qual seja, o de agir como “amortecedores” desse risco político em um ambiente de extrema polarização.
Com o país dividido entre blocos ideológicos consolidados, como garantir que políticas setoriais (saúde, infraestrutura, energia, tecnologia e segurança pública) não virem “moeda de troca” ideológica? Decerto cabe nesse contexto uma atuação técnica e suprapartidária para mitigar o risco de mudanças bruscas em incentivos fiscais e marcos regulatórios pós-outubro. Some-se a isso o fato de que o populismo fiscal figura como um dos principais componentes de instabilidade política.
É imperioso analisar como a pressão por reeleição e o avanço da direita parlamentar forçam o governo a adotar políticas fiscais expansionistas em 2026. Qual o impacto disso na inflação, nos juros e, consequentemente, na viabilidade de parcerias público-privadas (PPPs) e investimentos estrangeiros no próximo ciclo? Convém observar, igualmente, que o eixo de poder se deslocou definitivamente da Praça dos Três Poderes para os corredores das presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. O governo federal não é mais o único “proponente” de políticas, mas um “negociador” de sobrevivência.
O Mecanismo: do orçamento impositivo à fragmentação
À medida que as urnas de outubro de 2026 se aproximam, o Brasil assiste à consolidação de um fenômeno que redefine as fronteiras do poder: o parlamentarismo informal. O que antes era uma tensão cíclica entre os Poderes transformou-se em um deslocamento definitivo do centro de gravidade das políticas públicas. Hoje, o sucesso de uma agenda setorial ou a mitigação de um risco político não passa apenas pelo crivo técnico dos ministérios, mas pela complexa teia de interesses de um Legislativo que detém, como nunca antes, as chaves do orçamento e o ritmo do relógio institucional.
Para as empresas e instituições, essa nova realidade impõe um desafio sem precedentes: como planejar o longo prazo em um ambiente onde a governabilidade tornou-se uma moeda de troca diária e o risco político é o principal componente do Custo Brasil?” Emendas impositivas e o controle da pauta pelo Congresso esvaziaram a caneta do Poder Executivo. Qual a engrenagem que move esse poder parlamentar?
Essa metamorfose do presidencialismo de coalizão não ocorreu por acaso. O motor dessa mudança é a impositividade orçamentária, que transformou o parlamentar de um simples pleiteador de recursos em um coexecutor de políticas públicas. Se no passado o Executivo utilizava a liberação de verbas como ferramenta de barganha para aprovar projetos, hoje o fluxo é inverso: o Congresso detém parcelas significativas do Orçamento Geral da União que independem de autorização ministerial.
Na prática, isso pulveriza a estratégia nacional. Quando o recurso público é fragmentado em milhares de emendas individuais e de bancada, a visão de Estado cede lugar à necessidade paroquial de curto prazo. Para o profissional de Relações Institucionais e Governamentais, o tabuleiro tornou-se exponencialmente mais complexo. Não se gerencia mais o risco político apenas monitorando o Diário Oficial da União; é preciso decifrar as dinâmicas de poder interno das Casas, onde as comissões temáticas e as lideranças partidárias operam com uma autonomia que ignora, muitas vezes, as diretrizes do Plano Plurianual (PPA).”
O risco político da descontinuidade
Em ano eleitoral, políticas públicas de Estado (saúde, educação, infraestrutura etc.) são frequentemente trocadas por políticas de governo (vitrines eleitorais). A incerteza sobre o que será mantido após as eleições de 2026 cria um “custo Brasil” invisível, afastando investidores que temem a volatilidade regulatória.
O efeito colateral mais severo dessa descentralização de poder é a elevação do risco político de descontinuidade. Em um ano eleitoral como 2026, onde a sobrevivência política se sobrepõe à tecnicidade, as políticas de Estado tornam-se reféns de ciclos de conveniência. Projetos de longo prazo, essenciais para setores como infraestrutura e energia, por exemplo, enfrentam um ambiente de ‘paralisia decisória’ ou, pior, de mudanças bruscas nas regras do jogo para acomodar interesses de coalizões momentâneas.
Essa insegurança jurídica é o que alimenta o prêmio de risco Brasil. Quando o investidor percebe que o marco regulatório de um setor pode ser alterado por uma emenda de última hora em uma Medida Provisória — os chamados ‘jabutis’, agora potencializados pelo protagonismo parlamentar —, a confiança institucional desmorona. O risco, assim, não é apenas de quem ganhará a eleição, mas de como a atual fragmentação do poder impede que o país mantenha uma direção firme, independentemente do resultado das urnas. Neste ano, a principal ameaça à estabilidade não é a ideologia, mas a imprevisibilidade de um sistema onde todos tentam governar, mas ninguém assume a responsabilidade final pelo equilíbrio fiscal e regulatório.”
Muitas decisões de investimento ficam “congeladas” no primeiro semestre de 2026 aguardando a definição do cenário eleitoral e das lideranças das Casas para o próximo biênio. Faz-se visível a dificuldade de cobrar resultados de políticas públicas a partir do momento no qual a autoria é diluída entre um Executivo enfraquecido e um Congresso atomizado. Onde entra, afinal de contas, o profissional de RIG e como as instituições devem agir nesse caos? Sua atuação estratégica resume-se, basicamente, como naquele que será o tradutor necessário para manter a previsibilidade.
RIG como gestão de previsibilidade
A função institucional de fato mudou. Não se trata mais apenas de “fazer advocacy” por leis favoráveis, mas de garantir a segurança jurídica em um ambiente onde as regras do jogo mudam conforme a conveniência das coalizões eleitorais. Neste tabuleiro de poder fragmentado, a função das Relações Institucionais e Governamentais transita do lobby tradicional para uma gestão sofisticada de riscos.
Não basta mais ter acesso; é preciso ter inteligência de dados e informações e capacidade de mapeamento granular. Em 2026, atuar em RIG significa antecipar como a movimentação de uma bancada específica pode impactar o fluxo de caixa de um setor inteiro. As emendas parlamentares e o controle da pauta legislativa criaram um sistema onde o Executivo tem a responsabilidade (o ônus), mas o Legislativo tem a chave do cofre (o bônus). O profissional de RIG agora precisa mapear 513 deputados com poder de execução, e não apenas os ministérios.
O profissional estratégico é aquele que constrói pontes técnicas em um ambiente emocionalmente polarizado, garantindo que, apesar do ruído eleitoral, os fundamentos das políticas públicas setoriais permaneçam preservados. A resiliência institucional das empresas hoje depende da sua capacidade de ser percebida como parceira do desenvolvimento, independentemente de quem detém a caneta — ou a chave do cofre.
O desafio pós-urnas
Por: Daniel Duarte Lledó, Diretor de Relações Institucionais e Governamentais & Políticas Públicas da DataPolicy/Notícias DataPolicy
