Infraestrutura limitada, custos logísticos e desafios regulatórios continuam entre os principais fatores que influenciam o preço do gás natural para a indústria.
O gás natural ocupa uma posição estratégica na matriz energética e na economia brasileira. Presente em setores como siderurgia, indústria química, petroquímica, fertilizantes, cerâmica, vidro, papel e celulose, mineração e alimentos, o energético é utilizado tanto para geração de calor quanto como matéria-prima industrial. Por isso, o custo do gás influencia diretamente a competitividade das empresas, a atração de investimentos e a capacidade de expansão da produção nacional.
Apesar da importância do tema, o preço pago pelas indústrias vai muito além do valor da molécula do gás extraída dos reservatórios. Até chegar ao consumidor final, o produto percorre uma cadeia complexa que envolve produção, processamento, transporte, comercialização e distribuição. Em cada uma dessas etapas são incorporados custos que, somados aos tributos e encargos, determinam o valor final pago pelas empresas.
A formação desse preço tem ganhado espaço nas discussões sobre política energética porque o Brasil reúne uma das maiores reservas de gás natural da América Latina, especialmente no pré-sal, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse potencial em gás competitivo para a indústria.
Da produção ao mercado consumidor
A cadeia do gás natural começa na exploração e produção, realizadas em campos terrestres e marítimos. Após a extração, o gás é encaminhado para unidades de processamento, onde são retiradas impurezas e separados outros componentes para que o produto atenda às especificações técnicas exigidas para comercialização.
Na sequência, o energético percorre centenas ou até milhares de quilômetros por meio dos gasodutos de transporte. Essa infraestrutura conecta as regiões produtoras aos mercados consumidores e representa um dos principais elos da cadeia, pois permite que o gás chegue às distribuidoras estaduais e, posteriormente, às indústrias, estabelecimentos comerciais, residências e postos de gás natural veicular (GNV).
Ao longo desse percurso também atuam comercializadores, responsáveis pela negociação da molécula entre produtores, importadores, distribuidoras e consumidores livres. Dessa forma, o preço pago pela indústria reflete não apenas o custo da produção, mas todo o conjunto de serviços necessários para levar o gás até seu destino.
Embora a molécula do gás represente a maior parcela do preço final, as tarifas de transporte exercem influência significativa sobre o custo industrial. Elas remuneram a utilização da malha de gasodutos, cuja operação e expansão demandam investimentos elevados e de longo prazo.
Para a indústria, tarifas mais altas significam aumento dos custos de produção e perda de competitividade, especialmente em segmentos intensivos em energia. Já para as empresas transportadoras, a remuneração adequada é considerada essencial para viabilizar novos investimentos e ampliar a rede de transporte, permitindo que mais regiões tenham acesso ao gás natural.
Outro ponto considerado estratégico é o acesso à infraestrutura. Produzir gás não garante, por si só, que ele chegará ao mercado consumidor. Sem gasodutos, unidades de processamento, estações de compressão e outras instalações essenciais, parte da produção pode permanecer sem condições de escoamento. Em alguns casos, o gás produzido é reinjetado nos reservatórios por falta de capacidade de transporte ou processamento, reduzindo o volume efetivamente ofertado ao mercado.
Esse cenário também limita a entrada de novos agentes e reduz a concorrência, uma vez que produtores e comercializadores dependem do acesso às infraestruturas existentes para vender sua produção. Quanto menor a competição, menor tende a ser a pressão por preços mais competitivos para a indústria.
A reorganização desse mercado ganhou impulso com a promulgação da Lei nº 14.134, de 2021, conhecida como Lei do Gás. O novo marco legal buscou estimular a abertura do setor ao substituir o regime de concessão pelo de autorização para novos gasodutos de transporte, incentivar a entrada de novos agentes e estabelecer regras para ampliar o acesso às infraestruturas consideradas essenciais.
Nesse modelo, a produção, o processamento, o transporte e a comercialização são regulados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), enquanto a distribuição de gás canalizado é uma competência dos estados, executada por concessionárias estaduais e fiscalizada pelas respectivas agências reguladoras locais. Essa divisão de competências exige coordenação entre diferentes níveis de governo para garantir segurança jurídica e eficiência ao mercado.
Especialistas avaliam que a abertura do mercado representa um passo importante, mas destacam que seus resultados dependem da expansão da infraestrutura, da consolidação de um ambiente concorrencial e da implementação das medidas regulatórias previstas na legislação.
Desafios para transformar potencial em competitividade
Embora o Brasil tenha ampliado sua produção de gás natural nos últimos anos, sobretudo com o desenvolvimento do pré-sal, gargalos estruturais ainda dificultam que esse aumento se traduza em redução significativa dos custos para a indústria.
Entre os principais desafios apontados pelo setor estão a concentração da oferta, a limitada expansão da malha de gasodutos, a elevada reinjeção de gás, diferenças regulatórias entre os estados, custos logísticos e a necessidade de ampliar o acesso às infraestruturas essenciais.
Nesse contexto, o debate sobre tarifas de transporte e acesso à infraestrutura ultrapassa a discussão tarifária e passa a integrar a estratégia nacional de desenvolvimento econômico. Para governo, reguladores, investidores e setor produtivo, tornar o mercado de gás mais competitivo significa criar condições para reduzir custos industriais, estimular novos investimentos, fortalecer cadeias produtivas e aproveitar de forma mais eficiente o potencial das reservas brasileiras.
Por Letícia Medina/ Notícias DataPolicy.
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