O Brasil opera a maior infraestrutura de fomento à bioeconomia de sua história, mas empresas que tratam esses instrumentos como linhas de crédito genéricas perderão a janela de vantagem competitiva estrutural.
O Fundo Amazônia, criado em 2008, aprovou e contratou R$ 4 bilhões em 50 projetos apenas entre 2023 e 2025, valor que segundo o BNDES representa 58% de todo o volume financeiro apoiado desde a sua criação. Ao mesmo tempo, o Programa Eco Invest Brasil, instituído pela Lei nº 14.995, de 10 de outubro de 2024, sinalizou investimentos da ordem de R$ 127,6 bilhões já nos três primeiros leilões. Essa convergência não é coincidência: é a arquitetura pública de um mercado que o Brasil quer liderar antes que outros países estabeleçam os padrões.
A tese que o setor privado ainda não internalizou completamente é que o fomento público à bioeconomia não está sendo desenhado como política social ou como compensação ambiental. Está sendo estruturado como instrumento de competitividade nacional em mercados que valerão trilhões de dólares ao longo das próximas décadas, incluindo ingredientes naturais para cosméticos, fármacos e alimentos funcionais, fibras de origem vegetal para substituição de plásticos, bioestimulantes para o agronegócio e créditos de carbono e de serviços ambientais. Empresas que não souberem navegar nesses mecanismos de fomento não perderão apenas acesso a capital barato. Perderão posição em cadeias de fornecimento que estão sendo redesenhadas agora.
O ecossistema de fomento disponível hoje é substancialmente mais sofisticado do que era há cinco anos. O Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), lançado em abril de 2026 com horizonte até 2035, mapeou 70 canais com potencial para financiar a bioeconomia, os quais movimentaram cerca de R$ 238 bilhões em 2024. O BNDES opera linhas de crédito e equity por meio do Fundo Amazônia e do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima, Lei nº 12.114/2009). A Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) mantém chamadas públicas voltadas para inovação em biotecnologia, biomateriais e processos industriais baseados em recursos biológicos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) articula programas setoriais que conectam empresas a centros de pesquisa da Embrapa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e de universidades federais com capacidade técnica relevante para escalonamento industrial.
A complexidade está precisamente na arquitetura de acesso a esses recursos. Projetos de bioeconomia raramente se encaixam em um único instrumento. Um projeto de extração sustentável de óleos vegetais amazônicos para a indústria cosmética, por exemplo, pode demandar simultaneamente recursos de P&D da FINEP para desenvolvimento do processo de extração, financiamento de capital de giro do BNDES para a fase de escalonamento, certificação de cadeia de custódia financiada por editais do Ministério do Meio Ambiente e garantias de compra via arranjos com compradoras internacionais sujeitas à regulação europeia de due diligence ambiental, a chamada EUDR. Estruturar esse empilhamento de instrumentos exige capacidade técnica que a maioria das empresas não tem internamente e que gestores tradicionais de relações com bancos de desenvolvimento ainda não desenvolveram.
O mercado europeu está impondo exigências que amplificam a relevância desse fomento. A EUDR (EU Deforestation Regulation), que após sucessivos adiamentos tem aplicação prevista para 30 de dezembro de 2026 para grandes operadores e comerciantes, e para 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas, com data de corte fixada em 31 de dezembro de 2020 para a origem dos produtos, exige rastreabilidade georreferenciada da cadeia produtiva. O próprio PNDBio reconhece a rastreabilidade como gargalo estratégico transversal, listando a certificação de cadeias produtivas como ação prioritária em múltiplas missões do plano. Empresas que dependem de cadeias produtivas na Amazônia e no Cerrado precisarão investir em sistemas de monitoramento e conformidade que poucos fornecedores de médio porte conseguem financiar por conta própria. Os editais públicos e os programas de fomento são parte da solução para viabilizar essa adequação, especialmente em cadeias com fornecedores pulverizados.
O arcabouço legal de acesso à biodiversidade, estruturado pela Lei nº 13.123/2015, e as discussões ainda em curso sobre a regulamentação de um mercado específico de créditos de biodiversidade no Brasil adicionam uma camada nova a esse ecossistema. Ativos fundiários em biomas preservados passam a ser avaliados não apenas por sua função produtiva, mas por seu potencial de geração de valor em instrumentos de pagamento por serviços ambientais e, no horizonte regulatório, em créditos de biodiversidade ainda sem marco definitivo. Fundos de private equity e infraestrutura verde já estão mapeando esses ativos. Empresas que possuem ou controlam terras com vegetação nativa e que ainda não modelaram o valor potencial desses ativos em seus balanços estão subavaliando parte de seu portfólio.
O próprio PNDBio reconhece que os canais de financiamento existentes irrigam de forma desigual as missões da bioeconomia, com algumas frentes estruturalmente subfinanciadas. Isso revela menos um problema de volume de recursos e mais um problema de estruturação de projetos bancáveis. O Fundo Amazônia ficou paralisado entre 2019 e 2023 por divergências políticas com os doadores internacionais, principalmente Noruega e Alemanha, interrompendo projetos em andamento. Esse é um risco real, não retórica. Contudo, esse argumento justifica diversificação de instrumentos e estruturação mais robusta de projetos, não passividade. Empresas que usaram a incerteza regulatória como desculpa para não desenvolver competência em fomento público ficaram fora de financiamentos que seus concorrentes acessaram.O que define quem ganha posição nesse mercado nos próximos cinco anos não é a disponibilidade de recursos públicos, que existe e está crescendo, mas a capacidade de transformar projetos complexos em estruturas financiáveis. Isso requer uma arquitetura que combine instrumentos de fomento, garantias, concessões de uso de recursos naturais, contratos de compra de longo prazo e mecanismos de mitigação de risco que tornem o projeto elegível para múltiplas fontes simultaneamente. Empresas que chegarem a esse processo já com projetos estruturados, equipes técnicas preparadas e relacionamento com as instâncias de análise do BNDES, da FINEP e dos fundos climáticos terão vantagem decisiva sobre aquelas que iniciarem o processo a partir do zero quando o mercado já estiver mais disputado.
O que muda para o setor
Presidentes e diretores de empresas com operações em biomas ou com cadeias de fornecimento em áreas sensíveis precisam revisar, de forma imediata, se suas estruturas de project finance e captação incluem competência interna ou assessoria especializada em instrumentos de fomento público para bioeconomia. O empilhamento de recursos do BNDES, FINEP, Fundo Amazônia, Eco Invest Brasil e fundos climáticos internacionais exige uma lógica de estruturação de projetos diferente da captação bancária tradicional, e o prazo entre a concepção do projeto e o desembolso efetivo pode superar dois anos, o que torna a antecipação não opcional.Para empresas com ativos fundiários em biomas preservados ou com exposição à EUDR, a decisão mais urgente é encomendar uma avaliação independente do valor potencial desses ativos sob os novos marcos regulatórios em desenvolvimento, incluindo pagamento por serviços ambientais e rastreabilidade de cadeia produtiva. Fundos internacionais já estão precificando esses ativos com metodologias próprias; empresas que não fizerem o mesmo em seus balanços correm o risco de entrar em negociações de parceria, concessão ou desinvestimento sem informação adequada sobre o valor real do que possuem.
Por: Letícia Medina/Notícias DataPolicy.
