O Brasil segue vivenciando uma tensão aguda entre os seus Três Poderes, marcada pelo que especialistas chamam de “desdobramentos inéditos na República”. Indago se realmente tão inéditos assim. Quiçá na democracia brasileira, pois na história e, sobretudo, no imaginário da espécie humana, nem um pouco.
Esse quadro político-institucional que ora presenciamos assemelha-se sobremaneira a uma peça de teatro grega, onde o destino é traçado por forças que alternam entre a lei e a vontade política. Um verdadeiro triunvirato de conflitos político-institucionais. Na verdade, o panorama hodierno pode ser comparado espontaneamente a grandes arquétipos da humanidade, que estão relacionados a experiências ancestrais, histórias clássicas e mitos.
O Poder Executivo, sob a gestão do presidente Lula, enfrenta o desafio de articular prioridades legislativas, como o programa “Gás do Povo”, enquanto tenta manter a coesão em um Congresso de forte clima eleitoral. O governo federal navega com crescente distância do Parlamento (ainda que tenha conseguido, no final de 2025 para o início deste ano, distensionar o clima político), enquanto tenta manter a estabilidade econômica em um ano pré-eleitoral.
Já o Legislativo demonstra uma clara desconfiança em relação ao Poder Judiciário, em especial, à Suprema Corte. Uma pesquisa recente(*) revelou que a maioria dos parlamentares (70% na Câmara e 77% no Senado) confia mais na atuação técnica do Banco Central do que na do Supremo Tribunal Federal. O STF é visto por muitos parlamentares como um “tribunal político”, especialmente após a abertura do ano judiciário de 2026, que expôs feridas sobre a legitimidade e o protagonismo da corte.
O escândalo do Banco Master, com desdobramentos inéditos, tornou-se o epicentro dessa disputa. expondo a fragilidade da confiança entre os Três Poderes. Enquanto o Congresso prepara um cerco maior contra crimes financeiros, a tensão entre STF e o Legislativo/BC deve ditar o ritmo de 2026. O País vive, assim, um momento de escolhas, onde o destino da economia depende de desvincular a técnica das sombras da política.
Liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, o Banco Master deixou um rombo estimado em R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — valor que representa 40% do lucro de todos os bancos brasileiros no ano anterior. O Poder Judiciário enfrenta pressão por conta de supostos envolvimentos de ministros do STF com o caso Master.
A Polícia Federal e o Ministério Público investigam indícios de gestão fraudulenta, incluindo uma tentativa suspeita de injeção de R$ 16,7 bilhões pelo BRB (Banco de Brasília) no Master. O Congresso questiona o envolvimento de parentes de ministros do STF em escritórios que prestavam serviços ao banco, alimentando a narrativa de “contaminação de interesses privados” no tribunal.
A Caixa de Pandora: A comparação entre o Banco Master e o Mito da Caixa de Pandora tornou-se recorrente no noticiário financeiro e jurídico brasileiro a partir do final de 2025. Assim como na mitologia grega, a abertura dessa “caixa” (as investigações) liberou uma série de males que até então estavam ocultos sob uma fachada de crescimento meteórico. No mito, Pandora não resiste à curiosidade e abre o jarro, espalhando doenças e miséria pelo mundo. No caso do Master, a “abertura” ocorreu por meio da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e de auditorias que começaram a questionar a solidez dos números da instituição. O que parecia ser um banco de investimento em ascensão revelou-se um emaranhado de fraudes bilionárias e créditos inexistentes. Uma vez aberta a investigação, surgiram múltiplos problemas que impactaram o sistema financeiro e a política nacional;
O Mito de Ícaro: O Banco Master, com sua expansão agressiva e aquisições bilionárias (como a do Will Bank e o interesse do BRB), tentou voar próximo demais ao sol do poder político e financeiro. Suas asas de cera derreteram sob o calor da liquidação do Banco Central, resultando em uma queda que abalou todo o sistema financeiro nacional. Ou seja, ao buscar um crescimento acelerado e voar alto demais com o dinheiro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e parcerias obscuras, a instituição ignorou os limites impostos pelo “sol” da supervisão técnica. Quando a cera das asas (capitalização fraudulenta) derreteu, a queda foi retumbante, resultando em prisões e um impacto de R$ 52 bilhões no FGC;
O Conto de Rasputin: Na percepção de setores do Congresso, o Judiciário atua como um conselheiro influente demais, cujos laços pessoais e decisões políticas interferem na saúde da “monarquia” republicana;
A Grande Muralha: O Banco Central é visto pelo Legislativo como a muralha técnica que protege a economia contra o caos, enquanto o STF é percebido como a força nômade que tenta transpor essas barreiras por intermédio da judicialização da política. Ainda que construída para ser uma barreira impenetrável contra invasores, a grande muralha foi contornada ou atravessada em diversos momentos da história devido a traições ou falhas em pontos específicos;
Miragens no Deserto: A promessa de um banco público (BRB) se tornar um gigante nacional através da compra do Master revelou-se uma miragem, assim como nos contos árabes, deixando para trás um rastro de investigações e prejuízos bilionários aos credores;
O Mito de Minos: O Labirinto de Minos representa uma construção intrincada, tal qual a complexidade de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e o emaranhado burocrático/judicial que envolve o Banco Master, projetado para que ninguém, nem mesmo o Minotauro, encontrasse a saída. Investigadores relatam que as operações do banco funcionam como um “labirinto” de empresas e fundos de difícil rastreamento;
O Pacto de Fausto: A relação entre o Banco Master e figuras do poder se assemelha ao pacto de Fausto. O dono do banco, Daniel Vorcaro, teria tentado “comprar” influência e proteção de agentes políticos de alto escalão (envolvendo STF e TCU) para garantir a expansão, sacrificando a solidez da instituição em troca de poder imediato;
O Cavalo de Troia: O Banco Master pode ser visto como um “Cavalo de Troia” no sistema financeiro nacional. Aparentemente um banco inovador e inofensivo, ele introduziu riscos sistêmicos profundos dentro do FGC, o escudo dos depositantes;
A Lei do Deserto: Também nas histórias árabes, a sabedoria destaca a efemeridade da riqueza mal construída. O caso Master mostra que o “pacto das elites”, embora poderoso, não resistiu à gravidade dos crimes financeiros, evidenciando que quem acumula areia movediça, perde a caravana;
A Ambição de Qin Shi Huang: A tentativa de centralizar o poder de liquidação e controlar o fluxo de dinheiro, ignorando as normas técnicas, espelha a ambição do primeiro imperador chinês, que buscou a imortalidade, mas encontrou um império efêmero. O BC, ao atuar no caso, tenta impedir que a “muralha” do sistema bancário seja derrubada por dentro.
O Brasil de 2026 busca, conforme dito na abertura do ano judiciário, um “reencontro com a tripartição de poderes”. Contudo, o Banco Master desestabiliza esse movimento e mostra que, como nas tragédias antigas, os erros dos homens poderosos costumam cobrar um preço alto da sociedade.
O atual cenário político brasileiro desenha, portanto, um quadro de “pacto das elites” sob tensão, onde a harmonia entre os poderes se mostra frágil diante de crises financeiras e disputas de narrativa.
O caso do Banco Master, que culminou em liquidação extrajudicial e prisões em 2025, transformou-se no espelho mais nítido de uma República em que o técnico e o político se misturam, forçando-nos vigorosamente a lembrar dessas histórias e mitos clássicos sobre a ambição humana e a sua inevitável queda.
*Ranking dos Políticos, divulgada amplamente pela imprensa brasileira (como CNN Brasil, R7, Veja e Revista Oeste) no dia 10 de fevereiro de 2026.
A opinião do autor desta coluna não necessariamente reflete a posição deste editorial.
Daniel Duarte Lledó
Diretor de Políticas Públicas & Relações Institucionais e Governamentais
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