A Rota Bioceânica pode ampliar a integração produtiva do Cone Sul, mas seu impacto sobre os territórios dependerá de quanto a nova conexão será capaz de gerar valor, diversificar atividades e incorporar as economias locais
A construção de uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico costuma ser apresentada a partir de seus efeitos sobre o transporte e o comércio. No caso da Rota Bioceânica de Capricórnio, porém, a questão que permanece depois da análise da infraestrutura, do traçado e dos desafios de implementação é mais ampla: o que essa nova conexão poderá produzir nos territórios que atravessa?
A pesquisa que fundamenta esta série de matérias especiais mostra que a resposta não é necessariamente de um lado ou de outro. A Bioceânica pode ampliar a integração regional e, ao mesmo tempo, reforçar fluxos de exportação de produtos primários. O resultado dependerá da forma como governos, empresas e demais atores envolvidos estruturarem o corredor nos próximos anos.
O ponto central está na diferença entre utilizar a rota apenas para reduzir o caminho das mercadorias até os portos do Pacífico e utilizá-la também como instrumento de integração produtiva. O primeiro cenário pode ampliar a competitividade das exportações. O segundo exige que parte dos novos fluxos econômicos permaneça e se multiplique nos territórios atravessados.
Uma rota com potencial para reorganizar os territórios
O corredor atravessa regiões que historicamente ocupam posições periféricas nas grandes redes logísticas sul-americanas. Mato Grosso do Sul, o Chaco paraguaio, o Noroeste argentino e o Norte chileno podem ganhar maior centralidade com a conexão entre o Atlântico, o Pacífico e os mercados asiáticos.
No caso brasileiro, os efeitos potenciais também ultrapassam Mato Grosso do Sul. A análise aponta que regiões produtoras do Centro-Oeste, Sudeste, Sul e Nordeste podem utilizar a nova conexão, ampliando as alternativas de acesso aos mercados internacionais.
Essa mudança pode abrir espaço para novas atividades econômicas. Estudos analisados na pesquisa identificam oportunidades em cadeias já consolidadas, como celulose, soja, carnes e minério de ferro, mas também em segmentos como fertilizantes, lítio, sal, turismo e serviços logísticos.
A questão, portanto, não é se as commodities estarão presentes na rota. Elas já fazem parte da estrutura produtiva e comercial das regiões envolvidas e possuem importância para as economias nacionais.
O desafio é saber se a nova infraestrutura ficará restrita ao transporte desses produtos ou se poderá estimular outras etapas das cadeias produtivas.
Um corredor de integração produtiva não é apenas aquele que leva a mercadoria até o porto. É aquele que também cria oportunidades de produção, processamento, serviços e negócios ao longo do território.
Armazenagem, beneficiamento, serviços logísticos, infraestrutura digital, qualificação profissional e novas áreas industriais são alguns dos elementos apontados pela pesquisa como capazes de ampliar os efeitos econômicos da rota. A existência desses investimentos pode favorecer a formação de novas centralidades econômicas no interior sul-americano.
O risco do corredor de commodities
É justamente nesse ponto que aparece a principal questão crítica identificada pela pesquisa.
A Rota Bioceânica pode acelerar o deslocamento de soja, milho, carnes, celulose, minério de ferro e outros produtos primários em direção aos mercados internacionais. Isso pode representar ganhos logísticos e comerciais, mas não significa, por si só, diversificação econômica ou desenvolvimento territorial.
O risco identificado na análise é que a infraestrutura seja incorporada principalmente às cadeias de exportação já existentes, enquanto os territórios de passagem permaneçam com participação limitada nas etapas de maior valor agregado. Nesse cenário, grandes exportadores, operadores logísticos e empresas já integradas ao comércio internacional poderiam capturar parcela significativa dos benefícios, enquanto municípios atravessados também enfrentariam novas demandas sobre seus serviços e infraestrutura.
Isso não significa que a presença das commodities seja incompatível com a integração regional. O problema apontado pela pesquisa é outro: a possibilidade de a expansão da infraestrutura apenas reproduzir uma estrutura primário-exportadora, sem ampliar os encadeamentos produtivos locais.
A própria análise identifica sinais iniciais de dinamização econômica em Porto Murtinho, no Brasil, e Carmelo Peralta, no Paraguai, com novos negócios e expansão de atividades ligadas ao turismo, alimentação, hospedagem e logística. Esses movimentos, contudo, ainda não são suficientes para caracterizar um processo consolidado de desenvolvimento regional.
Por isso, a construção da infraestrutura precisa ser acompanhada por políticas capazes de ampliar a participação dos territórios. Apoio a produtores locais e cooperativas, formação profissional, crédito, serviços logísticos intermediários, zonas de processamento e articulação entre universidades, empresas e governos aparecem na pesquisa como mecanismos possíveis para transformar os ganhos logísticos em desenvolvimento mais amplo.
O que define o futuro da Bioceânica
A principal conclusão da pesquisa é que as Rotas de Integração Sul-Americana não são, por si mesmas, garantia de desenvolvimento regional. Da mesma forma, também não estão necessariamente destinadas a reproduzir um modelo baseado exclusivamente na exportação de produtos primários.
O resultado dependerá das escolhas institucionais, econômicas e políticas que orientarão sua implementação. Governança permanente, facilitação do comércio, digitalização de procedimentos, harmonização normativa, financiamento e participação dos diferentes atores aparecem como condições para que a infraestrutura se converta em um sistema efetivo de integração.
No caso da Rota Bioceânica de Capricórnio, isso significa que a conclusão das obras representa apenas uma etapa. A capacidade de conectar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile aos mercados do Pacífico poderá produzir diferentes resultados conforme a forma como os territórios forem incorporados aos novos fluxos.
A pesquisa, portanto, não trata a questão como uma escolha entre integração regional e exportação de commodities. As duas dimensões podem coexistir. A questão central é qual estrutura econômica será construída a partir da nova conexão.
Se a Bioceânica for utilizada principalmente como uma via mais eficiente para levar produtos primários aos portos, seus efeitos sobre o desenvolvimento territorial poderão permanecer limitados. Se, ao contrário, estiver acompanhada de políticas de diversificação, agregação de valor e integração das economias locais, poderá assumir uma função mais ampla na reorganização produtiva do Cone Sul.
É essa diferença que separa um corredor de passagem de um corredor de desenvolvimento — e que deverá definir, nos próximos anos, o significado econômico e territorial da Rota Bioceânica de Capricórnio.
Por Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos/Notícias DataPolicy.
Créditos da imagem: Canva.
*Esta reportagem foi produzida com base no Trabalho de Conclusão de Curso “As cinco Rotas de Integração Sul-Americana como eixo de integração regional e reconfiguração logística do Cone Sul em direção à Ásia-Pacífico”, de autoria do jornalista responsável por este texto, Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos.
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