O fenômeno climático redesenha simultaneamente o mapa de risco físico da matriz hidráulica e o espaço de oportunidade para diversificação, resiliência e novos ativos regulatórios no setor elétrico.
A fonte hidráulica respondeu por 51,2% da oferta interna de eletricidade em 2025, segundo artigo do GESEL/UFRJ de agosto de 2026. Em janeiro de 2026, o país teve o quarto pior mês de energia natural afluente em nove décadas, com reservatórios do Sul próximos de 30%, segundo a Auren.
Chuvas de abril e maio reverteram parte do quadro, elevando os reservatórios do Sul à faixa de 45%. O movimento é coerente com o padrão do El Niño no Brasil: mais chuva no Sul, menos no Norte e no norte do Nordeste¹.
Caso o fenômeno se confirme na intensidade projetada, esse padrão se intensifica no Sudeste e no Centro-Oeste a partir da primavera, região que concentra cerca de 70% da capacidade de armazenamento hidrelétrico do país. A distribuição temporal exata, porém, tem se mostrado menos previsível em um contexto de maior variabilidade climática.
Com menos água nessa região, o sistema tende a acionar mais termelétricas, de custo mais alto, pressionando o preço no mercado livre e as tarifas reguladas. O fenômeno tinha, em abril de 2026, probabilidade superior a 80% de se consolidar no segundo semestre¹. O SIN, com armazenamento em torno de 71% em junho, ainda não havia sentido seu efeito mais intenso.
A partir daqui, o texto avança para leitura analítica. A tese é que o fenômeno produz dois movimentos simultâneos: risco de custo operacional pela dependência hídrica nas regiões de maior capacidade de armazenamento, e oportunidade de reposicionamento regulatório para quem lê corretamente essa transição.
No lado do risco, a redução de afluência deslocaria despacho para térmicas, elevando o custo variável do sistema e o Preço de Liquidação das Diferenças. Isso afetaria a margem de setores eletrointensivos como cimento, papel e celulose, química e mineração.
No lado da oportunidade, o MME avançou, dentro do Plano Clima, o Plano Setorial de Energia, com dezesseis metas e trinta e oito ações voltadas à resiliência hídrica, dado de política pública verificável.
Esse desenho, em nossa leitura, abre espaço para complementaridade energética, baterias e eólica no Nordeste, cujo regime hídrico é distinto do Sudeste. A assimetria regional do El Niño reforça isso: o Sul ganha água quando o Sudeste e o Centro-Oeste perdem.
A meta do governo federal, prevista no Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), elaborado pela EPE em conjunto com o MME, é elevar a renovabilidade da matriz elétrica de 83% em 2025 para 86% em 2035, o que sinaliza leilões e financiamento verde nessa mesma direção.
O primeiro contra-argumento, cujo peso reconhecemos, é que a recuperação parcial do Sul e o armazenamento em 71% reduzem a urgência de agir agora. Isso ignora, a nosso ver, a distribuição regional desigual do risco.
O segundo contra-argumento é que não há certeza sobre magnitude e distribuição temporal dos efeitos, o que tornaria prematuro qualquer reposicionamento. O argumento tem fundamento técnico, mas subestima que hedge e portfólio são decisões sob incerteza por natureza.
Para quem decide hoje, a leitura correta não separa risco de oportunidade: ambos nascem da mesma vulnerabilidade estrutural da matriz elétrica brasileira à variabilidade hídrica regionalizada.
O que muda para o setor
Empresas eletrointensivas e geradoras devem monitorar a exposição de contratos ao Preço de Liquidação das Diferenças e ao Mecanismo de Realocação de Energia diante da probabilidade elevada de El Niño forte no segundo semestre de 2026, com maior risco concentrado no Sudeste e no Centro-Oeste, além das janelas regulatórias abertas pelo Plano Setorial de Energia do Plano Clima.
Fundos de infraestrutura e conselhos de administração devem tratar a variabilidade hídrica regionalizada como critério permanente de alocação de portfólio, avaliando armazenamento, geração eólica e eficiência energética como resposta ao mesmo risco físico que hoje pressiona, de forma desigual entre regiões, os custos operacionais do sistema.
NOTA:
¹ Nota Técnica Conjunta El Niño 2026, INPE, INMET, Funceme e Censipam, abril de 2026. Disponível no link.
Por Letícia Medina/ Notícias DataPolicy.
Créditos da imagem: Canva/ Tom Fisk.
