Rota Bioceânica de Capricórnio busca conectar o interior do Cone Sul ao Pacífico e aos mercados asiáticos

Corredor de mais de 2.500 quilômetros liga Brasil, Paraguai, Argentina e Chile e pode criar uma nova alternativa logística para o comércio sul-americano com a Ásia-Pacífico

A Rota Bioceânica de Capricórnio, também conhecida como Corredor Bioceânico de Capricórnio (CBC) ou Rota de Integração Latino-Americana (RILA), é uma das principais apostas de integração física do Cone Sul. Com mais de 2.500 quilômetros, o corredor conecta Brasil, Paraguai, Argentina e Chile e busca criar uma ligação terrestre entre áreas produtivas do interior sul-americano e os portos do Pacífico.

A escolha da Rota de Capricórnio como foco da análise do Trabalho de Conclusão de Curso “As cinco Rotas de Integração Sul-Americana como eixo de integração regional e reconfiguração logística do Cone Sul em direção à Ásia-Pacífico”, de Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos. Se deve à sua posição estratégica no Cone Sul. O corredor reúne quatro países, atravessa importantes regiões produtoras e estabelece uma conexão terrestre com os portos do Pacífico, colocando em evidência o potencial de uma nova ligação logística entre a América do Sul e os mercados da Ásia-Pacífico.

No Brasil, a rota abrange integralmente Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Os principais pontos de saída do território nacional são Porto Murtinho, Foz do Iguaçu e Dionísio Cerqueira. A partir dessas conexões, o trajeto segue pelo Paraguai e pelo noroeste da Argentina, alcançando os portos chilenos de Iquique, Antofagasta e Mejillones.

A estrutura foi concebida principalmente como corredor rodoviário, mas também prevê articulação com outros modais. O estudo cita conexões complementares com a ferrovia entre Corumbá e Santos e com a Hidrovia do Rio Paraguai, ampliando as possibilidades logísticas do eixo.

Entre as obras mais importantes está a ponte binacional entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai. Também fazem parte das intervenções o contorno rodoviário de acesso à ponte e a pavimentação de aproximadamente 225 quilômetros da Picada 500, no Chaco paraguaio. Essas obras são consideradas essenciais para garantir continuidade física ao corredor.

Uma nova saída para o Pacífico

A principal importância estratégica da Bioceânica de Capricórnio está na possibilidade de oferecer ao interior do Cone Sul uma alternativa de acesso ao Pacífico.

Historicamente, economias como a brasileira estiveram fortemente orientadas para os portos do Atlântico. A crescente importância da Ásia-Pacífico, especialmente da China, modificou essa lógica e aumentou o interesse por corredores capazes de aproximar regiões produtoras dos terminais da costa oeste sul-americana.

Os dados utilizados no Trabalho mostram o potencial dessa mudança. Uma conexão pelo porto de Antofagasta pode representar redução de 3.312 quilômetros em relação à rota pelo Estreito de Magalhães, de 5.479 quilômetros em relação ao Canal do Panamá e de 6.401 quilômetros em comparação ao Canal de Suez. A estimativa aponta ainda uma redução de aproximadamente 12 dias em relação à rota pelo Panamá.

Isso não significa que o corredor substituirá automaticamente as rotas marítimas existentes. Sua competitividade dependerá da origem das cargas, dos destinos, dos custos de transporte e da capacidade dos portos envolvidos. Ainda assim, os números mostram por que a saída pelo Pacífico passou a ter peso maior no planejamento logístico regional.

A transformação também ocorre em um momento de aumento da importância dos portos da costa oeste. A pesquisa destaca o Porto de Chancay, no Peru, inaugurado em 2024 com participação de capital chinês, como símbolo de uma nova dinâmica logística no Pacífico Sul. O terminal amplia a competição entre portos e pressiona outros países da região a modernizar sua infraestrutura e suas conexões terrestres.

Nesse cenário, os portos chilenos de Iquique, Antofagasta e Mejillones ganham importância como possíveis portas de saída para cargas provenientes do interior do Cone Sul.

Um corredor que pode mudar a posição do interior sul-americano

A Rota de Capricórnio não conecta apenas países. Ela atravessa regiões historicamente menos integradas aos grandes fluxos de comércio, como o Centro-Oeste brasileiro, o Chaco paraguaio, o Noroeste argentino e o Norte chileno.

Por isso, a pesquisa interpreta o corredor como uma possível reconfiguração logística do Cone Sul. Ao criar uma ligação direta entre o interior da América do Sul e os portos do Pacífico, a rota pode diversificar os caminhos disponíveis para o comércio regional e internacional.

A proposta não é substituir completamente os corredores tradicionais voltados ao Atlântico, mas ampliar as alternativas de circulação e criar novas conexões entre regiões produtivas, fronteiras e portos.

Esse é o principal elemento que diferencia a Bioceânica de Capricórnio dentro das cinco Rotas de Integração Sul-Americana. Ela materializa, de forma mais concreta, a ideia de conectar o interior do continente à Ásia-Pacífico por meio de um corredor terrestre.

O projeto, porém, ainda está em processo de consolidação. A conclusão das obras e a integração dos diferentes trechos nacionais serão determinantes para transformar o traçado planejado em uma rota plenamente operacional.

A Bioceânica de Capricórnio representa, portanto, uma tentativa de criar uma nova geografia logística para o Cone Sul: uma conexão que cruza quatro países, atravessa os Andes e aproxima áreas produtivas do interior dos mercados do Pacífico.

Depois da infraestrutura física, surge o próximo desafio: garantir que as fronteiras, aduanas e procedimentos dos quatro países funcionem de maneira coordenada. É esse ponto que será tratado na próxima matéria da série.

Por Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos/Notícias DataPolicy.

Créditos da imagem: Canva.

*Esta reportagem foi produzida com base no Trabalho de Conclusão de Curso “As cinco Rotas de Integração Sul-Americana como eixo de integração regional e reconfiguração logística do Cone Sul em direção à Ásia-Pacífico”, de autoria do jornalista responsável por este texto, Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos.

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