Recorde de movimentação e expansão dos terminais privados mostram avanço da infraestrutura, mas problemas de sobreestadia indicam que gargalos permanecem na operação portuária.
O sistema portuário brasileiro atravessa um ciclo de expansão. Em 2025, os portos do país movimentaram 1,4 bilhão de toneladas, alta de 6,1% em relação ao ano anterior e o maior volume da série histórica. O crescimento foi acompanhado pela ampliação da participação dos Terminais de Uso Privado (TUPs), que movimentaram 906,1 milhões de toneladas, avanço de 7% e equivalente a 64,6% de toda a movimentação portuária brasileira.
O desempenho mostra que a infraestrutura vem aumentando sua capacidade de atender ao comércio exterior, mas os números também colocam uma questão: a expansão física dos terminais está sendo acompanhada pela mesma evolução na previsibilidade das operações?
Os dados mais recentes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) indicam que ainda existem pontos de pressão. Em 2025, 50% das reclamações apresentadas por empresas à agência estavam relacionadas à sobreestadia, ou demurrage, contra 40% em 2024.
Segundo o diretor-geral da ANTAQ, Frederico Dias, durante participação do X Congresso de Direito Marítimo e Portuário, na quarta-feira, 26 de agosto, entre os fatores associados aos problemas estão falta de berços de atracação, equipamentos inadequados, atrasos no desembaraço aduaneiro e falhas no agenciamento marítimo.
A questão ganha importância diante do peso das commodities na movimentação portuária. A soja, por exemplo, alcançou 139,7 milhões de toneladas movimentadas em 2025, crescimento de 14% no ano. O resultado reforça a pressão sobre uma infraestrutura que precisa lidar simultaneamente com grandes volumes, sazonalidade da produção e janelas específicas para embarque.
Terminais privados avançam
A expansão dos TUPs representa uma das principais transformações da infraestrutura portuária brasileira. Além de já responderem por quase dois terços da movimentação, os terminais privados continuam recebendo novos investimentos.
Em fevereiro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou R$ 9,23 bilhões em investimentos relacionados a 25 instrumentos contratuais de TUPs, formalizados entre julho de 2025 e janeiro de 2026. O pacote reúne sete novos contratos, que somam R$ 5,81 bilhões, e 18 alterações contratuais, com previsão de R$ 3,41 bilhões em novos aportes.
O movimento já vinha sendo observado em 2025. Em julho, foram anunciados R$ 4,7 bilhões para implantação e ampliação de nove terminais privados em seis estados, com projetos voltados principalmente ao aumento da capacidade de movimentação de cargas.
O avanço dos terminais, entretanto, não elimina necessariamente os gargalos da cadeia. Uma infraestrutura portuária mais eficiente depende também da conexão com rodovias, ferrovias, armazenagem, acessos aos terminais, berços de atracação e programação dos embarques. Quando uma dessas etapas não acompanha o crescimento da demanda, a restrição pode simplesmente migrar para outro ponto da cadeia logística.
Esse cenário ajuda a explicar por que recordes de movimentação podem coexistir com problemas de espera e sobreestadia. O desafio não está apenas em aumentar a capacidade nominal dos terminais, mas em garantir que os diferentes componentes da operação funcionem de maneira coordenada.
Como isso impacta o setor de infraestrutura
Para o setor de infraestrutura, a tendência aponta para uma agenda que vai além da construção de novos terminais. Investimentos em acessos terrestres, ferrovias, dragagem, equipamentos, sistemas de agendamento e modernização operacional passam a ser determinantes para transformar capacidade instalada em eficiência efetiva.
A própria ANTAQ mantém o Estatístico Aquaviário como instrumento de acompanhamento da movimentação e da evolução do setor, com dados fornecidos por portos organizados e terminais autorizados.
O desafio, portanto, é fazer com que a expansão da infraestrutura acompanhe não apenas o crescimento dos volumes exportados, mas também a necessidade de previsibilidade. Para um país cuja competitividade depende fortemente da exportação de commodities, reduzir o tempo de espera e aumentar a confiabilidade dos embarques significa diminuir custos logísticos e dar maior segurança às cadeias de comércio exterior.
Por P.C /Notícias DataPolicy.
Créditos da imagem: Luiz Damasceno/ APS.
