Cinco rotas podem redesenhar a logística brasileira e aproximar a América do Sul do Pacífico

Imagem meramente ilustrativa. Créditos da imagem: Canva.

Programa criado pelo governo brasileiro reúne cinco grandes eixos de integração e busca conectar o interior produtivo do país a mercados sul-americanos e às saídas para o Atlântico e o Pacífico

SÉRIE ESPECIAL: OS CAMINHOS DA INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA.

A integração física da América do Sul ganhou uma nova frente de planejamento a partir de 2023, quando o governo brasileiro lançou o programa Rotas de Integração Sul-Americana, dia 30 de maio de 2023. Coordenada pelo Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), a iniciativa reúne cinco grandes corredores destinados a ampliar a conexão entre o Brasil, países vizinhos e diferentes mercados da região.

Mais do que um conjunto de obras de infraestrutura, as Rotas representam uma tentativa de reorganizar a maneira como o território sul-americano se conecta. A proposta envolve infraestrutura de transporte, integração energética e digital, facilitação do comércio e articulação entre diferentes governos e regiões.

O objetivo é enfrentar um problema histórico da América do Sul: apesar da proximidade geográfica entre seus países, a região ainda possui importantes barreiras físicas e logísticas que dificultam a circulação de pessoas e mercadorias.

É nesse contexto que o programa procura transformar corredores de infraestrutura em instrumentos de integração regional.

Um projeto que vai além das fronteiras

Uma das características das Rotas é ampliar o foco tradicional das políticas de integração. Em vez de concentrar a estratégia apenas nos estados brasileiros que fazem fronteira com outros países, o programa passou a incorporar também o interior do território nacional.

Segundo o Relatório 2025 das Rotas de Integração Sul-Americana do MPO, utilizado no Trabalho de Conclusão de Curso “As cinco Rotas de Integração Sul-Americana como eixo de integração regional e reconfiguração logística do Cone Sul em direção à Ásia-Pacífico”, de Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos, as 16 unidades da Federação brasileiras que não possuem fronteira internacional representam 36% do território nacional, 73% do PIB e 74% da população brasileira.

Esses estados também concentram aproximadamente 66% das exportações brasileiras destinadas à América do Sul e 52% das importações brasileiras provenientes da região.

Os números ajudam a dimensionar a lógica do programa: para ampliar a integração sul-americana, não basta conectar uma fronteira a outra. É necessário aproximar as regiões produtoras dos corredores internacionais e criar conexões entre o interior brasileiro, os países vizinhos e os mercados externos.

Essa é a ideia de interiorização da integração, um dos dois eixos estruturantes do programa. O segundo é a bioceanidade, relacionada à criação de conexões entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

As cinco Rotas

O programa está organizado em cinco grandes eixos, cada um associado a uma determinada área geográfica e a diferentes necessidades de integração.

A Rota 1, Ilha das Guianas, está concentrada no extremo norte da América do Sul. O corredor busca melhorar as conexões entre o norte do Brasil, as Guianas e o Caribe, ampliando a integração de uma região que historicamente possui menor densidade de infraestrutura e conexões terrestres.

A Rota 2, Amazônica, conecta áreas da Amazônia brasileira aos países andinos. O eixo envolve uma região marcada por grandes distâncias e características territoriais particulares, o que torna a integração dependente de diferentes modalidades de transporte e de infraestrutura adequada às condições amazônicas.

A Rota 3, Quadrante Rondon, concentra-se no oeste brasileiro e em suas conexões com os países vizinhos. O corredor busca ampliar a circulação de mercadorias e a integração das áreas produtivas dessa região com os mercados sul-americanos.

A Rota 4, Bioceânica de Capricórnio, está localizada no Cone Sul e conecta Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. O eixo é responsável pela ligação entre áreas do interior sul-americano e os portos do Pacífico, sendo a principal rota bioceânica analisada no estudo desenvolvido no TCC.

A Rota 5, Bioceânica do Sul, por sua vez, concentra-se na integração do Sul do Brasil com os países do Cone Sul e amplia as possibilidades de conexão da região com diferentes corredores internacionais.

Em conjunto, os cinco eixos procuram formar uma rede que atravesse diferentes áreas da América do Sul. O TCC identifica entre os interesses comuns dos países envolvidos a busca por redução dos custos logísticos, ampliação da conectividade, fortalecimento das fronteiras e diversificação do acesso aos mercados internacionais.

Apesar desses objetivos compartilhados, cada país possui interesses próprios dentro da estratégia. O Brasil busca ampliar a integração de seu território e criar novas alternativas de conexão; países mediterrâneos, como Paraguai e Bolívia, têm interesse em reduzir as limitações decorrentes da ausência de litoral; enquanto Chile e Peru possuem interesse no fortalecimento de seus portos e na conexão com os mercados asiáticos.

Uma nova lógica para a infraestrutura regional

A proposta das Rotas também está relacionada a uma transformação na agenda de integração física da América do Sul.

Desde o início dos anos 2000, iniciativas como a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) procuraram articular projetos de transporte, energia e comunicações entre os países. Posteriormente, a agenda foi incorporada ao COSIPLAN, no âmbito da UNASUL.

Essas experiências ajudaram a consolidar a infraestrutura como parte da estratégia de integração regional, mas também revelaram dificuldades relacionadas à execução dos projetos, financiamento e coordenação entre os governos.

As Rotas surgem, portanto, em uma tentativa de retomar essa agenda com uma abordagem mais ampla. O programa brasileiro procura articular infraestrutura regional com políticas nacionais e territoriais.

Em 2024, o governo federal criou, por meio do Decreto nº 12.034, a Comissão Interministerial para a Infraestrutura e o Planejamento da Integração da América do Sul. A estrutura tem como objetivo articular diferentes áreas do governo relacionadas à integração regional, incluindo transporte, energia, comunicações, produção e desenvolvimento.

A lógica é que os corredores não sejam tratados como projetos isolados. Uma rodovia, uma ponte ou um porto fazem parte de uma rede maior, que depende da conexão entre diferentes territórios e setores.

O Atlântico já não é a única direção

A segunda dimensão central do programa é a bioceanidade.

Durante décadas, os principais fluxos logísticos brasileiros foram organizados em direção ao Atlântico. A concentração da infraestrutura portuária brasileira nessa costa contribuiu para estruturar as cadeias de exportação e importação do país.

As Rotas introduzem uma perspectiva diferente ao buscar ampliar as conexões terrestres em direção ao Pacífico.

O movimento ocorre em um momento de crescente importância da Ásia-Pacífico para o comércio internacional. A expansão dos fluxos comerciais entre a América do Sul e economias asiáticas aumenta o interesse por alternativas de conexão com os portos localizados na costa do Pacífico.

No Trabalho, essa mudança é interpretada como parte de uma possível reconfiguração logística e geoeconômica do Cone Sul. As cinco Rotas passam a ser analisadas não apenas como obras de infraestrutura, mas como instrumentos capazes de alterar os fluxos de circulação e a posição dos territórios sul-americanos nas redes de comércio internacional.

Essa perspectiva é particularmente importante porque desloca o debate de uma pergunta simples — “onde construir infraestrutura?” — para uma questão mais ampla: “como conectar os territórios sul-americanos aos principais mercados internacionais?”

O mapa como estratégia

O desenho das cinco Rotas revela, portanto, uma tentativa de transformar a geografia em ativo econômico.

A proposta conecta diferentes regiões brasileiras a países vizinhos e, a partir deles, a mercados e portos que podem ampliar as alternativas de circulação de mercadorias. Ao mesmo tempo, aproxima áreas que historicamente permaneceram relativamente desconectadas das principais redes logísticas sul-americanas.

O Trabalho identifica essa característica como um dos elementos centrais do programa: as Rotas representam uma tentativa de reorganizar a infraestrutura regional a partir de uma lógica bioceânica, multimodal e interiorizada, conectando áreas produtivas, países mediterrâneos, regiões fronteiriças e portos do Pacífico.

A dimensão do projeto, entretanto, também evidencia sua complexidade. São diferentes países, governos nacionais e subnacionais, órgãos públicos, setores produtivos e territórios envolvidos em uma mesma estratégia de infraestrutura.

Para o Brasil, o desafio é particularmente relevante. O país possui a maior economia e o maior território da América do Sul, mas a integração regional depende da capacidade de transformar essa dimensão em capacidade efetiva de articulação com os vizinhos.

O que está sendo desenhado, portanto, não é apenas uma nova infraestrutura de transporte. É uma tentativa de modificar os caminhos pelos quais mercadorias, investimentos e territórios sul-americanos se conectam entre si e com o restante do mundo.

E é a partir desse mapa que começa a análise mais específica desenvolvida no TCC. Entre os cinco corredores, a Rota Bioceânica de Capricórnio se destaca por reunir, em um único eixo, os objetivos de integração regional, interiorização e conexão com o Pacífico. É nela que a próxima matéria da série irá se concentrar.

Por Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos/Notícias DataPolicy.

Créditos da imagem: Canva.

*Esta reportagem foi produzida com base no Trabalho de Conclusão de Curso “As cinco Rotas de Integração Sul-Americana como eixo de integração regional e reconfiguração logística do Cone Sul em direção à Ásia-Pacífico”, de autoria do jornalista responsável por este texto, Pedro Henrique Cavalcanti de Vasconcelos.

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