Especial "A virada de 2026" · Parte 1 de 2
A virada que as pesquisas não mostravam
Lula parte 1,9 ponto atrás no 1º turno, vence o 2º por 3,6 pontos e quebra uma regra que durava desde 2002. O que o modelo da DataPolicy PRO, que tem as pesquisas como referência, via — e o que não via.
Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, ou 64.256.232 votos. Flávio Bolsonaro teve 48,21%, o equivalente a 59.826.041 votos. A diferença foi de 4,43 milhões de votos, ou 3,6 pontos percentuais, com 100% das seções apuradas pelo TSE às 23h27 de 25 de outubro. No 1º turno, Flávio terminara na frente. Lula estava 1,9 ponto atrás.
É a primeira vez, entre os segundos turnos de 2002 e 2026, que quem ficou em segundo lugar no 1º turno vence a disputa. Em todas as eleições anteriores da série, o candidato que liderou o 1º turno também levou o 2º. Os dois lados bateram recordes: os 64,26 milhões de Lula são a maior votação da série, acima dos 60,35 milhões que ele mesmo teve no 2º turno de 2022, e os 59,8 milhões de Flávio são a maior votação já obtida por um candidato derrotado em um 2º turno, superando os 58,2 milhões de Jair Bolsonaro em 2022. A diferença de votos de 2026 também é mais que o dobro da de 2022, quando foi de 2,14 milhões.
Esta é a primeira de duas partes. Aqui, a história do resultado: o que as pesquisas mostravam, como o modelo 'Panorama Eleitoral' de 24 de outubro de 2026, da DataPolicy, as usou, por que a virada é inédita e como Lula a construiu entre os dois turnos. A segunda parte mostra onde ela foi decidida, estado por estado e cidade por cidade.
O que as pesquisas mostravam
Na última rodada antes do 2º turno, 21 institutos divulgaram pesquisas com votos válidos. Todos mostravam uma vantagem para Lula menor do que a que o resultado confirmou. Só três o colocavam à frente: Vox Brasil (+1,2 ponto), Instituto Ranking (+0,8) e Colectta (+0,6). Os mais distantes do resultado foram Vetor Arrow, que apontava Flávio 5,4 pontos à frente, e Real Time Big Data e GERP, que o apontavam 4,0 pontos à frente. Entre todos os institutos, o erro na margem foi de 2,4 a 9,0 pontos.
A média dessas últimas pesquisas ficou em Flávio 1,9 ponto à frente. O resultado foi Lula com 3,6 pontos de vantagem. Como o desvio foi para o mesmo lado em todos os institutos, ele não se corrige com uma média entre eles.
Para medir o tamanho do desvio, aplicamos às pesquisas de 2026 o mesmo método usado nas eleições anteriores: pesquisas dos últimos 14 dias antes da votação, combinadas por um procedimento padrão. Quando o instituto não divulga votos válidos, usamos os votos totais. O resultado é um desvio de 5,7 pontos em 2026. Em 2014, as pesquisas deram menos votos ao candidato do PT do que ele teve, com desvio de 1,8 ponto. Em 2018, o desvio foi de 3,2 pontos, na mesma direção. Em 2022, foi pequeno (0,9 ponto) e em sentido contrário. O desvio típico dessas três eleições é de 2,2 pontos, o que faz o de 2026 ser cerca de 2,6 vezes maior, o maior da série.
Como o nosso modelo usou as pesquisas
O modelo da DataPolicy PRO não observa o eleitor. Ele toma as pesquisas como referência: usa as 55 pesquisas de 2º turno registradas no TSE, de 22 institutos, com trabalho de campo a partir de 5 de outubro de 2026 e fonte que cite o número de registro. Isso evita misturar levantamentos feitos antes de a disputa se definir ou sem comprovação de que foram registrados.
Os institutos costumam divergir de forma sistemática: alguns tendem a mostrar mais Flávio, outros mais Lula. O procedimento corrige essas diferenças e dá mais peso às pesquisas recentes, chegando a uma estimativa da vantagem de um candidato sobre o outro. Essa estimativa pesa 76% na projeção. Os outros 24% vêm de indicadores de aprovação do governo e de economia.
O resultado é transformado em probabilidade com base no tamanho dos desvios que as pesquisas tiveram em eleições passadas. É assim que se chega a uma chance de vitória e a uma faixa em que o resultado deve cair em 8 de cada 10 cenários simulados.
O que o modelo via
Como o modelo acompanha as pesquisas, a sua projeção central foi de 49,3% dos votos válidos para Lula. Nesse cenário central, Flávio aparecia como favorito, com 73% de chance. Mas a vitória de Lula estava entre os desfechos possíveis: tinha 27% de chance, cerca de 1 em 4, e aparecia em vários dos cenários simulados.
O que o modelo não esperava era a margem. O resultado, 51,8% para Lula, ficou 1,0 ponto acima da faixa que o modelo considerava provável em 8 de cada 10 cenários, de 47,8% a 50,7%. Uma vantagem tão grande tinha menos de 2,0% de chance, cerca de 1,8%. Em outras palavras, a vitória de Lula estava dentro do que o modelo contemplava. A margem, não.
Há dois limites que explicam por que a projeção ficou abaixo do resultado. O primeiro: o procedimento corrige as diferenças entre os institutos, mas não consegue corrigir um desvio que atinge todos para o mesmo lado, que foi o que aconteceu. Como as pesquisas são a referência do modelo, quando todas apontam na mesma direção o modelo as acompanha. O segundo: a incerteza do modelo foi calibrada com apenas três eleições anteriores (2014, 2018 e 2022), e o desvio das pesquisas em 2026 foi maior do que o dessas três.
Uma virada inédita
Para entender por que o resultado foi tão difícil de enxergar nas pesquisas, vale olhar o ponto de partida. Nos segundos turnos de 2002 a 2022, o líder do 1º turno venceu todas as vezes. O 1º turno de 1989 não consta nos arquivos do TSE.
O que tornou 2026 diferente não foi a força da recuperação de Lula entre os turnos. Ela foi de 5,4 pontos na diferença entre os finalistas, dentro do que já se viu: 4,8 em 2014 e 6,5 em 2018, ambos em eleições vencidas pelo líder do 1º turno. Em 2022, a melhora do segundo colocado foi de 3,4 pontos, e em 2002, de 0,7 ponto. Só em 2006 a distância aumentou, em 14,7 pontos.
O que foi excepcional foi o ponto de partida. A distância entre os dois primeiros no 1º turno de 2026 foi de apenas 1,9 ponto, a menor da série desde 2002. Nas demais eleições, ela variou de 5,2 pontos (2022) a 23,2 pontos (2002). Quando a diferença é tão curta, o 2º turno praticamente recomeça: uma movimentação comum de votos já basta para inverter a ordem. Foi o que aconteceu.
Como Lula ganhou: três movimentos
Primeiro movimento: partiu atrás e terminou à frente. No 1º turno, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos, Lula 45,16%, e os outros candidatos somaram 7,81%. No 2º turno, com só dois nomes na urna, esses eleitores precisaram escolher um lado, e Lula terminou com 51,79%. Flávio também ganhou votos entre os turnos, 3,7 milhões a mais, mas Lula ganhou 10,4 milhões. Em termos relativos, Lula teve 19,3% de votos a mais, e Flávio, 6,6%.
Segundo movimento: o eleitor voltou às urnas. Em todos os segundos turnos de 2002 a 2018, a abstenção subiu em relação ao 1º turno, de 1,0 a 3,4 pontos. Em 2022, ficou praticamente igual, com queda de 0,4 ponto. Em 2026, caiu de 21,08% para 19,22%, a maior queda da série. Compareceram 80,78% dos eleitores aptos no 2º turno, contra 78,92% no 1º. Foram 3,0 milhões de eleitores a mais nas urnas, um número de grandeza comparável à diferença final entre os candidatos, de 4,4 milhões. Os dados do TSE não dizem em quem cada um deles votou, mas mostram que a disputa foi decidida também por quem estava disposto a ir votar.
Terceiro movimento: a maior parte dos votos em disputa foi para Lula. Entre os turnos, havia 14,1 milhões de votos à disposição: 9,3 milhões de eleitores que, no 1º turno, tinham votado em candidatos que não chegaram ao 2º turno, e 4,8 milhões de votos novos, de quem se absteve, votou em branco ou anulou antes. Lula ficou com 10,4 milhões desses votos, ou 74%. Flávio ficou com 3,7 milhões. É uma comparação entre os totais dos dois turnos, e não o voto de cada eleitor, mas indica que o saldo do movimento entre os turnos foi muito favorável a Lula.
O que vem a seguir
A virada de Lula não foi uniforme no território. Ele cresceu nos 27 estados, mas só seis deles concentraram quase dois terços do aumento da vantagem, e a capital paulista sozinha respondeu por 7% dele. Na segunda parte deste especial, mostramos quais são esses estados, o que cada um fez, e como a virada se espalhou por 5.571 municípios.
Flávio 5,4 pt à frente
Resultado real: Lula +3,6
Desvio: 9,0 pontos
Por Eduardo Reis/ Notícias DataPolicy.
Créditos da Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil.
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