Especial "A virada de 2026" · Parte 2 de 2
Seis estados e 5.571 cidades: onde a virada de Lula foi decidida
Lula cresceu nos 27 estados, mas só seis concentraram 65% do aumento da vantagem dele. A capital paulista, sozinha, respondeu por 7%. O mapa da virada, estado por estado e cidade por cidade.
Na primeira parte deste especial, mostramos como Lula saiu de 1,9 ponto atrás no 1º turno para 3,6 pontos à frente no 2º, num resultado que as pesquisas não mostravam e que o nosso modelo (o "Panorama Eleitoral" de 24 de outubro de 2026, da DataPolicy), que as tem como referência, via em cerca de 1 de cada 4 cenários, mas com uma margem que não esperava. Agora, a pergunta é onde: em quais estados, em quais cidades, e com quanto peso.
A resposta curta é que Lula cresceu em todo o país, mas a virada em votos concentrou-se em poucos lugares. Os votos do Nordeste e do Sudeste, juntos, responderam por 81% dela.
Como medimos a virada
Chamamos de virada a mudança na diferença de votos entre Lula e Flávio de um turno para o outro. No país, a vantagem de Flávio no 1º turno era de 2,22 milhões de votos. No 2º turno, a vantagem passou a ser de Lula, com 4,43 milhões. A virada foi, portanto, de 6,66 milhões de votos. É essa mudança que cada estado e cada cidade ajudou a produzir.
Essa medida é diferente do percentual de cada candidato, e é a que melhor responde a quem foi decisivo. Um estado em que Lula perdeu pode ter contribuído muito para a virada, se a diferença a favor de Flávio diminuiu bastante. Foi o que aconteceu em São Paulo.
Seis estados que respondem por 65%
São Paulo (1,40 milhão de votos, ou 21,0% da virada), Minas Gerais (0,70 milhão, 10,5%), Rio de Janeiro (0,67 milhão, 10,1%), Bahia (0,65 milhão, 9,8%), Pernambuco (0,47 milhão, 7,0%) e Ceará (0,42 milhão, 6,3%) somaram 65% dos 6,66 milhões. Em seguida vêm Maranhão (3,8%), Rio Grande do Sul e Pará (3,4% cada) e Paraíba (3,3%).
Cada um desses estados teve um papel diferente. São Paulo foi o maior em volume, mesmo perdendo: a vantagem de Flávio caiu de 3,42 milhões de votos para 2,02 milhões. Minas Gerais foi o único estado que trocou de lado: Flávio tinha 0,59 milhão de votos de vantagem no 1º turno, e Lula terminou com 0,11 milhão, numa disputa de 50,4% a 49,6%. No Rio de Janeiro, a vantagem de Flávio caiu de 1,27 milhão para 0,60 milhão de votos. E Bahia, Pernambuco e Ceará ampliaram uma vantagem que Lula já tinha.
Quanto Lula cresceu em cada estado
Em pontos percentuais, Lula cresceu de 4,5 a 9,3 pontos nos 27 estados. O maior salto foi em Goiás (de 31,1% para 40,3%, ou +9,3), seguido por São Paulo (de 38,2% para 46,2%, +8,0), Distrito Federal (de 38,1% para 45,7%, +7,6) e Rio de Janeiro (de 39,4% para 46,9%, +7,5). Os menores crescimentos foram em Rondônia (+4,5), Roraima (+4,7) e Acre (+4,7).
Crescer, porém, não significa vencer. Goiás teve o maior salto do país, e Flávio ainda venceu lá com 59,7%. Em Minas Gerais, onde Lula passou de 43,3% para 50,4%, o crescimento foi o que trocou o vencedor. No Amapá, Lula foi de 45,7% para 52,9%. No fim, Lula venceu em 13 estados e Flávio em 14. Lula levou todo o Nordeste, o Pará, o Amazonas, o Amapá e Minas Gerais. Flávio ficou com o Sul, o Centro-Oeste e parte do Sudeste e do Norte, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro. A maior vantagem de Lula foi no Piauí (51,8 pontos); a de Flávio, em Roraima (44,9).
Um país dividido em regiões
Por região, o quadro foi este. O Nordeste, com 27% dos eleitores, foi de 63,8% para 69,4% de Lula e respondeu por 38% da virada. O Sudeste, com 42% dos eleitores, foi de 39,7% para 47,2% e respondeu por 43%. O Sul (14% dos eleitores) foi de 31,3% para 37,4% e respondeu por 7%. O Centro-Oeste (8%) foi de 32,6% para 40,0% e respondeu por 5%. E o Norte (8%) foi de 44,6% para 50,0%, terminando empatado, com 7%.
O Nordeste, que já partia de patamares altos, cresceu menos em pontos (+5,6) do que o Sudeste (+7,5) e o Centro-Oeste (+7,4), mas ampliou a vantagem. Já o Sudeste, a região que concentra mais eleitores, ficou com Flávio na frente por 52,8% a 47,2%, e foi onde Lula mais acumulou votos para a virada.
Em relação a 2022, o 2º turno de 2026 foi parecido. Lula teve 51,79% agora e 50,90% naquele ano. Ele venceu em 13 estados nas duas eleições, e só dois mudaram de lado: o Amapá passou para Lula e o Tocantins para Flávio. Por estado, o percentual de Lula variou de −2,7 pontos (Tocantins) a +4,5 (Distrito Federal). A grande diferença está no 1º turno: Lula teve 45,2% em 2026 e 48,4% em 2022. A virada foi sobre o 1º turno, não sobre a eleição anterior.
As cidades: 214 municípios trocaram de lado
Lula passou a vencer em 2.875 dos 5.571 municípios (51,6%), contra 2.663 no 1º turno. Foram 214 municípios que trocaram de lado: 213 passaram de Flávio para Lula e apenas um fez o caminho contrário. Lula subiu em 5.567 dos 5.571 municípios, e o comparecimento aumentou em quase 80% deles.
Entre as capitais, Lula venceu em 13 das 27. Duas trocaram de lado entre os turnos: Rio de Janeiro, com cerca de 5 milhões de eleitores, e Macapá. Em Belo Horizonte (49,2%) e em Brasília (45,7%), Lula perdeu por pouco, e em Manaus também continuou atrás, mas a diferença diminuiu nas três. Entre os maiores municípios que mudaram de lado estão ainda Osasco, Ananindeua, São Vicente, Ribeirão das Neves, Cotia e Araraquara.
Na soma da virada, a capital paulista pesou mais que qualquer outra cidade: 0,47 milhão de votos, ou 7,1% do total do país. Depois vêm Rio de Janeiro (0,25 milhão, 3,8%), Salvador (0,18 milhão, 2,7%), Fortaleza (0,10 milhão, 1,5%), Brasília (0,08 milhão, 1,2%), Belo Horizonte (0,07 milhão, 1,1%), Recife e Manaus (0,07 milhão e 1,0% cada). Essas oito capitais responderam por 19% da virada.
Quanto maior a cidade, maior o salto
Agrupados por número de eleitores, os 5.571 municípios mostram um padrão: Lula cresceu em todos os grupos, mas o salto aumenta com o tamanho da cidade. Nos 1.432 municípios de até 5 mil eleitores, ele foi de 45,1% para 50,1% (+5,0). Nos 2.780 de 5 a 20 mil, de 51,8% para 56,9% (+5,1). Nos 1.138 de 20 a 100 mil, de 46,5% para 52,5% (+6,1). Nos 192 de 100 a 500 mil, de 39,4% para 46,7% (+7,3). E nas 29 cidades com mais de 500 mil eleitores, que reúnem 26% do eleitorado, de 44,5% para 52,4% (+7,9). Essas 29 maiores cidades responderam por 29% da virada.
O crescimento de Lula também foi maior onde os candidatos que ficaram fora do 2º turno tinham mais votos no 1º, com correlação de 0,84 entre os municípios, em uma escala em que 1 é a relação perfeita. A relação com o tamanho do município é de 0,62, e foi maior onde ele partia mais baixo no 1º turno (−0,30). O comparecimento teve relação bem mais fraca (0,25). Os maiores saltos individuais aconteceram em cidades de Goiás, de 11 a 14 pontos, como Hidrolândia, Inhumas e Trindade, e de Minas Gerais, como Itabirito e Caeté, com 11 pontos.
Onde o eleitor voltou, e onde faltou
O comparecimento subiu em quase todo o país, e mais na Bahia (de 80,0% para 83,3%, +3,3 pontos), em Pernambuco (+3,0) e em São Paulo (+2,7). Caiu em oito estados, e as maiores quedas foram no Norte: Amapá (−8,1 pontos), Roraima (−6,0) e Acre (−5,6). Mesmo assim, Lula cresceu nesses estados. Em Acre, Amapá, Maranhão, Amazonas, Roraima e Tocantins, o número absoluto de votos de Flávio foi menor no 2º turno do que no 1º.
O que levar para a decisão
Lula venceu por 3,6 pontos e 4,4 milhões de votos, e Flávio teve 48,2% dos votos válidos. A eleição reflete um país dividido quase ao meio, e essa divisão é regional: o Nordeste deu a Lula 69,4%; o Sul e o Centro-Oeste deram a Flávio 62,6% e 60,0%; o Sudeste ficou em 47,2% para Lula e 52,8% para Flávio; o Norte terminou empatado. Quem tem operações concentradas em uma região está exposto a uma realidade política diferente de quem está em outra.
A virada veio de mais eleitores indo votar e das grandes cidades, e não de uma mudança uniforme em todo o território. Em disputas apertadas, mobilização e abstenção pesam tanto quanto a preferência. E, como mostrou a primeira parte, pesquisa é indicação, não resultado: em 2014, 2018 e 2026 as pesquisas subestimaram o candidato do PT, e em 2026 por uma margem maior. Para planejamento, vale trabalhar com mais de um cenário, em vez de um único número, e considerar que o desvio pode vir de todos os institutos juntos. O nosso modelo, por ter as pesquisas como referência, acompanha o que elas indicam.
Este especial descreve o que os dados oficiais do TSE mostram. Não projetamos aqui o comportamento do governo, do Congresso ou da economia, que dependem de outras variáveis.
Lula: 45,7% → 52,9% (+7,2 pts)
Venceu: Lula (52,9%)
Virada: 0,02 mi (0,4% do país)
Comparecimento: 82,6% → 74,5% (−8,1 pts)
Por Eduardo Reis/ Notícias DataPolicy.
Créditos da Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil.
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