Será que Lula verá repetir-se o cenário desfavorável percebido de janeiro a maio deste ano? Ou será que a quebra de todos os sigilos do caso Master poderá colocar a balança novamente favorável ao PT?
Quem acompanhou as pesquisas eleitorais de agosto para setembro de 2026 pode ter sentido que algo mudou no ar. A vantagem que Lula parecia confortável em sustentar ao longo do ano foi se estreitando semana a semana, até chegar ao que pode ter sido o momento mais delicado de sua campanha: empate técnico com Flávio Bolsonaro em múltiplos institutos, aprovação recuando de 47% para 43% e desaprovação ultrapassando os 50% pela primeira vez no ano. Não parece ter sido um acidente. Quatro movimentos, encadeados ao longo de meses, podem ter se somado para produzir esse resultado.
Tudo pode ter começado dentro de casa — da casa do adversário, para ser mais preciso. Em junho, Michelle
Bolsonaro, que havia dedicado anos a construir uma ponte entre o bolsonarismo e o eleitorado feminino, gravou um vídeo em que afirmou ter sido “humilhada” e “maltratada” pelo enteado Flávio.
O efeito pode ter sido imediato: a rejeição de Flávio entre as mulheres teria saltado de 45% para 55% em menos de um mês. Michelle parecia ser muito mais do que uma figura de apoio — durante sua gestão no PL Mulher, as filiações femininas ao partido teriam crescido de 346 mil para 411 mil1. Com sua saída, esse trabalho pode ter desmoronado, deixando Flávio sem seu principal escudo em um segmento que representa mais da metade do eleitorado brasileiro.
Nesse vácuo, pode ter surgido Augusto Cury. O escritor e psiquiatra, candidato pelo Avante, teria saído de 2% para 10% das intenções de voto entre 14 de agosto e 2 de setembro2. Sua campanha digital parece ter encontrado exatamente as pessoas que ninguém mais estava alcançando: mulheres, jovens e eleitores do Nordeste cansados da polarização.
Os números sugerem que o voto que teria deixado Lula não foi para Flávio — pode ter ido para Cury. No Nordeste, a aprovação de Lula pode ter caído de 66% para 60%; entre jovens de 16 a 34 anos, o recuo poderia chegar a 10 pontos percentuais em menos de dois meses.3
Por fim, em agosto, a crise no STF pode ter dado o golpe mais duro. A decisão do ministro André Mendonça de
retirar o sigilo das conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes teria exposto ao país uma Corte dividida, em plena campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, os vazamentos sobre a investigação de Lulinha — misturados ao escândalo de fraudes no INSS — teriam ocupado as manchetes justamente quando a campanha de Lula precisaria de espaço para falar de propostas.
Para Guilherme Russo, da Quaest, tudo isso teria pesado especialmente sobre o eleitorado independente, aquele que decide eleições apertadas. O quadro que se desenharia nas pesquisas de 7 a 10 de setembro seria de uma disputa completamente aberta a menos de um mês do primeiro turno.
Uma coisa é certa: essa campanha está se mostrando uma das mais disputadas dos últimos anos.
Por Eduardo Reis (cientista político e CEO da DataPolicy). Créditos da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil
*A opinião do autor desta coluna não necessariamente reflete a posição deste editorial.
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- Fonte disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/michelle-futuro-politico-em-risco-vacuo-pl/ ↩︎
- Fonte disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/pesquisas-que-confirmam-avanco-augusto-cury/ ↩︎
- Fonte disponível em https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2026/09/em-ascensao-em-pesquisas-campanha-de-augusto-cury-mira-eleitor-jovem-feminino-e-nordestino-nas-redes-sociais-veja-raio-x.ghtml ↩︎

