Natureza começa a entrar na avaliação financeira das empresas

Imagem meramente ilustrativa. Créditos da imagem: Canva/ thecorgi.

Novas metodologias aproximam riscos e dependências ambientais da análise financeira, criando uma ponte entre sustentabilidade, fluxo de caixa, custo de capital e valuation.

A relação entre natureza e valor financeiro começa a ganhar espaço nas decisões empresariais. Um levantamento publicado pela Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), em parceria com a Universidade de Oxford e a Global Canopy, reuniu mais de 600 evidências de 360 fontes e identificou impactos financeiros associados a riscos relacionados à natureza. Entre eles estão efeitos sobre fluxos de caixa, custo de capital e acesso a financiamento.

O resultado evidencia um paradoxo: empresas podem depender diretamente de água, solo, biodiversidade e outros recursos naturais para gerar receita, mas essas dependências nem sempre são incorporadas de forma clara aos modelos tradicionais de avaliação.

Na prática, um risco ambiental pode se transformar em risco financeiro. Uma empresa dependente de água, por exemplo, pode enfrentar redução da produção ou aumento de custos diante de um cenário de escassez. A alteração da condição ambiental passa, então, a afetar despesas, investimentos e projeções de receita — variáveis utilizadas no cálculo do valor de uma companhia.

O estudo da TNFD, contudo, também aponta uma dificuldade: ainda existem lacunas para demonstrar de maneira consistente os efeitos financeiros desses riscos no nível individual das empresas. O desafio está justamente em transformar dependências ambientais em informações que possam ser utilizadas pelos mercados.

Essa aproximação já aparece na regulamentação internacional. A IFRS S1, do International Sustainability Standards Board (ISSB), estabelece a divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade capazes de afetar fluxos de caixa, acesso a financiamento ou custo de capital no curto, médio ou longo prazo.

Outro avanço ocorreu em 2025, com a publicação da ISO 14054, que estabelece princípios e orientações para a contabilidade de capital natural, reunindo informações financeiras, ambientais e socioeconômicas sobre as interações das organizações com a natureza.

O movimento não significa simplesmente colocar um preço em uma floresta ou na biodiversidade. A questão é identificar como a relação de uma empresa com a natureza pode alterar sua operação e, posteriormente, seu desempenho financeiro.

No Brasil, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) aplicou a metodologia LEAP, da TNFD, em um estudo com 20 empresas, principalmente do setor de uso da terra. A análise considerou riscos, impactos e dependências relacionados à natureza, incluindo biomas, fornecedores e áreas ecologicamente sensíveis.

Impactos para o setor

Para empresas e investidores, o avanço do valuation verde pode ampliar a análise de riscos antes de decisões de investimento, crédito, seguros e operações de fusões e aquisições. Também cria demanda por dados ambientais mais estruturados, auditáveis e comparáveis.

O movimento não substitui os modelos tradicionais de valuation, mas pode alterar as informações utilizadas para projetar fluxos de caixa e avaliar riscos. O principal desafio será evitar uma falsa precisão e desenvolver metodologias capazes de traduzir dependências ambientais em impactos econômicos consistentes.

Assim, a discussão deixa de ser apenas “quanto vale a natureza?” e passa a incorporar uma questão financeira: quanto vale uma empresa quando seus riscos e dependências em relação à natureza são considerados em sua avaliação?

Por P.C /Notícias DataPolicy.
Créditos da imagem: Canva/ thecorgi.

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