O curtailment revela por que a eólica offshore não pode esperar

O curtailment revela por que a eólica offshore não pode esperar
Imagem ilustrativa. Crédito: Canva.

O corte de geração que afeta investidores em eólica onshore hoje é um fenômeno de curto prazo; a eólica offshore pode resolver o gargalo que virá depois.

Por que avançar na regulamentação da eólica offshore em um momento de excesso de geração? A questão foi colocada na audiência pública da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal realizada em 16 de junho de 2026, onde dados apresentados por Elbia Aparecida Silva Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica, indicam cortes de geração que chegam a 45% da capacidade de produção de investidores em eólica onshore no Brasil. A resposta dos participantes foi direta: o curtailment é um desequilíbrio de curto prazo, concentrado em janelas específicas do dia, e não um problema estrutural do sistema. Usá-lo como justificativa para retardar a regulamentação da eólica offshore significaria confundir um fenômeno conjuntural com uma decisão de política energética de longo prazo.

O curtailment brasileiro de 2026 tem uma causa específica e bem delimitada: a expansão acelerada da geração solar distribuída criou excesso de oferta em uma janela diária que o sistema ainda não tem flexibilidade para absorver. Gannoum situou o problema com precisão: o excesso de geração solar distribuída se concentra principalmente entre 10h e 14h, mas quando feita a contabilidade completa do sistema, o Brasil já recorre a usinas termelétricas às 18h. O problema não é excesso de energia no sentido sistêmico: é descasamento entre o perfil de geração disponível e o perfil de consumo ao longo do dia. Milad Shadman, doutor em Engenharia Oceânica pela COPPE/UFRJ, reforçou esse argumento com uma analogia direta: a solução para o corte de geração é melhorar a infraestrutura do sistema, não parar de produzir energia renovável, da mesma forma que o congestionamento em uma rodovia exige melhorias na infraestrutura viária, não deixar de fabricar carros ou usar estradas. A solução passa por modernização do sistema, armazenamento e maior flexibilidade operacional, não por limitação da oferta futura.

O perfil de geração da eólica offshore é a resposta direta a esse descasamento. Medições da Petrobras no Nordeste, apresentadas por Roberta Cox, diretora de Políticas para o Brasil no Conselho Global de Energia Eólica e diretora-presidente da Coalizão Eólica Marinha, indicam que o pico de geração das turbinas offshore ocorre entre 16h e 18h, exatamente quando a geração solar recua e o sistema precisa despachar termelétricas. Gannoum acrescentou, com base em estudo desenvolvido com a OIP, que a eólica offshore tem capacidade de produzir das 17h até as 4h, cobrindo o período de pico de demanda em que hoje o sistema depende de fontes mais caras e mais poluentes. A eólica offshore não concorre com a solar no horário de curtailment: segundo Cox, o pico de geração offshore ocorre exatamente quando o excesso de energia solar recua e o pico de demanda se instala.

A complementaridade com a geração hidrelétrica acrescenta uma segunda camada de valor. Estudos apresentados por Shadman demonstram que a eólica offshore no Nordeste apresenta índices elevados de complementaridade mensal com as principais bacias hidrográficas brasileiras: durante o período de chuva, o sistema consegue economizar água nos reservatórios, e durante a seca, a fonte eólica offshore reduz a necessidade de deplecionamento dos reservatórios. Com 43% da capacidade instalada do sistema brasileiro ainda concentrada em hidrelétricas, dado apresentado na audiência referente a junho de 2026, essa complementaridade tem valor econômico e de segurança energética que vai além do simples substituto de geração fóssil.

O horizonte de demanda reforça a urgência. As projeções apresentadas na audiência apontam crescimento expressivo da carga nacional, com data centers, hidrogênio verde, eletrificação industrial e mobilidade elétrica como vetores principais. Data centers merecem atenção específica: Shadman informou que estudos indicam demanda da ordem de um gigawatt apenas para esse segmento, com a característica de que essa demanda é contínua, vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem tolerância para intermitência. A eólica offshore, com seu perfil de geração noturna e vespertina, complementa a solar de forma que o conjunto das duas fontes cobre uma parcela maior das horas do dia sem necessidade de despacho térmico.

Resolver esse problema sem eólica offshore significa aumentar a dependência de armazenamento por baterias, de flexibilização da demanda ou de despacho térmico, todas alternativas mais caras ou mais poluentes do que adicionar uma fonte que naturalmente produz quando o sistema mais precisa. A eólica offshore não chega ao mercado em tempo de resolver o curtailment de hoje: chega em tempo de resolver o gargalo de potência firme que o Brasil enfrentará quando os data centers, os eletrolisadores de hidrogênio e a frota de veículos elétricos estiverem plenamente operacionais.

O contraponto relevante é o da sequência de maturação do mercado. Há um argumento legítimo de que iniciar o processo sem dados marinhos suficientes pode selecionar áreas inadequadas, gerar conflitos com comunidades pesqueiras e comprometer licenciamentos futuros. Cox respondeu a esse argumento: os dados ambientais que faltam hoje são exatamente os dados que as cessões de área permitirão levantar. Sem a cessão, os estudos não começam; sem os estudos, os dados não existem. O argumento da insuficiência de dados, levado à sua conclusão lógica, bloqueia o único processo que poderia resolvê-la.

A leitura correta do curtailment de 2026 é a de um aviso sobre a necessidade de diversificar o perfil horário de geração antes que a demanda das próximas décadas supere a capacidade de resposta do sistema. Se o decreto for editado ainda em 2026 e o primeiro leilão de áreas ocorrer dentro do mesmo ano, o Brasil entra no ciclo de maturação que entregará capacidade instalada offshore precisamente quando o sistema mais precisará dela. Perder esse prazo por confusão entre o problema de curto e o de longo prazo é um custo que o setor elétrico não tem condições de absorver.

O que muda para o setor

Para investidores em geração que já sofreram perdas com o curtailment onshore e avaliam se o risco regulatório brasileiro justifica novos comprometimentos de capital, a eólica offshore representa uma classe de ativo com perfil de geração estruturalmente diferente: produz quando o sistema precisa e paga, não quando o excesso de solar comprime o preço de curto prazo. A análise de viabilidade de projetos offshore não deve ser contaminada pelo cenário tarifário atual do onshore; os dois mercados operam em janelas temporais e de despacho distintas, e a confusão entre eles pode levar à rejeição de oportunidades de posicionamento antecipado em um mercado que estará em disputa intensa quando o decreto for editado.

Para empresas do setor elétrico com contratos de fornecimento de longo prazo, especialmente aquelas que atendem cargas industriais intensivas ou infraestrutura digital, o perfil de geração offshore abre uma janela de estruturação contratual diferenciada: energia predominantemente vespertina e noturna, complementar à solar, com correlação negativa com os períodos de restrição hídrica. Mapear essa complementaridade na estruturação de portfólios de geração e nas negociações de contratos de energia livre é uma vantagem competitiva que começa a ser construída agora, antes que o mercado de cessão de áreas esteja aberto e os ativos mais atrativos já tenham donos.

Por Letícia Medina/Notícias DataPolicy.

Dados e informações públicas de qualidade. Foque no que importa.
Oferecemos as informações e dados públicos que você precisa para tomar decisões estratégicas.
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

Nossas principais temáticas