No segundo turno, a defesa do legado e a promessa de mudança expõem estratégias eleitorais distintas, cada uma com riscos próprios para o próximo ciclo de governo.
O segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, opõe duas estratégias que respondem à mesma insatisfação do eleitor por caminhos contrários. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato a um quarto mandato, procura converter a própria trajetória e os resultados de seus governos em razão para permanecer no cargo. O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), tenta transformar o desejo de mudança em expectativa de um governo capaz de fazer diferente.
O primeiro turno deu peso adicional a essa diferença. Flávio terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Desde a Emenda Constitucional 16/1997, que instituiu a reeleição, é a segunda vez que um presidente em busca de novo mandato chega ao segundo turno atrás do adversário. A primeira foi em 2022, com Jair Bolsonaro.
As primeiras pesquisas do segundo turno, divulgadas ontem (8), mantiveram o senador na dianteira. No Datafolha, Flávio tem 49% das intenções de voto, contra 45% do presidente, ou 52% a 48% dos votos válidos, empate técnico no limite da margem de erro. No levantamento Poder360/Aya, que ouviu 3 mil eleitores entre 5 e 7 de outubro, a vantagem é de 53% a 47% dos votos válidos. Na véspera do primeiro turno, o Datafolha registrava Lula numericamente à frente.
Lula dispõe de um ativo que o oponente não tem na mesma medida, a experiência à frente do Executivo, com realizações a reivindicar e decisões a defender. Flávio, parlamentar sem passagem pelo Executivo, não responde pelo governo atual e pode explorar a insatisfação com ele. Em contrapartida, terá de demonstrar que a mudança anunciada vai além da rejeição ao adversário.
O legado como argumento de continuidade
A defesa do legado é uma escolha coerente para Lula. Sua trajetória está associada à expansão dos programas de transferência de renda, à política de valorização do salário mínimo e à inclusão de parcelas da população historicamente afastadas do consumo e dos serviços públicos. São ativos políticos reais, que sustentam a tese de que a continuidade preserva conquistas e permite ampliá-las.
O argumento também se apoia na memória do crescimento econômico e da mobilidade social observados entre 2003 e 2010. Para parte do eleitorado, esse período está ligado a mudanças concretas na vida familiar, e a campanha procura convertê-lo em sinal de previsibilidade.
O limite da estratégia está no fato de que o legado também impõe prestação de contas. Quanto mais o candidato invoca a experiência como fonte de autoridade, mais o eleitor se sente autorizado a cobrar resultados no presente. A comparação que orienta o voto se faz com as expectativas atuais em relação a custo de vida, endividamento, segurança e qualidade dos serviços públicos, e não com o país de duas décadas atrás.
O Datafolha ilustra essa cobrança. Para 40% dos entrevistados, a avaliação do governo é negativa, contra 35% de avaliação positiva. A rejeição ao presidente chega a 46%, acima dos 43% registrados por Flávio.
O primeiro turno expôs esse descompasso. Parte das críticas internas ao resultado recaiu sobre uma comunicação que deu mais espaço a temas como soberania nacional do que ao custo de vida e à violência urbana, pautas que o adversário explorou com insistência. Ainda em setembro, a campanha petista passou a tratar do preço dos alimentos e do poder de compra.
Após o primeiro turno, ampliou o espaço para a segurança pública, com a defesa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, e para o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso. Também passou a associar uma eventual vitória de Flávio a riscos para benefícios sociais. A mudança de ênfase indica que a própria campanha reconheceu os limites da retrospectiva como argumento eleitoral.
A mudança como promessa e como prova de capacidade
Flávio parte da lógica inversa. Em vez de pedir reconhecimento pelo que foi feito, procura convencer o eleitor de que o país pode ser governado de outra forma. Desde a noite da apuração, apresenta o segundo turno como uma escolha entre a continuidade do PT e a mudança de governo.
A mensagem tem alcance porque reúne insatisfações diversas. Para uns, significa outra condução da economia. Para outros, mais rigor na segurança pública, menor carga tributária ou revisão das prioridades do Estado. Quanto mais demandas a promessa acomoda, maior a obrigação de explicar o que será alterado, como será financiado e quais efeitos produzirá.
A proposta fiscal da campanha mostra essa exigência com nitidez. A equipe econômica, coordenada pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, anunciou um corte de despesas equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 190 bilhões com base no PIB de 2025. O plano inclui a revisão do arcabouço fiscal e a redução do número de ministérios.
A campanha ainda não detalhou quanto cada medida contribuiria para a meta nem quais despesas permanentes seriam reduzidas. Parte relevante do ajuste dependeria da monetização de ativos da União, como a securitização da dívida ativa, a criação de um fundo imobiliário com imóveis públicos e a antecipação de receitas de royalties. Essas operações geram receitas extraordinárias, mas não reduzem a despesa recorrente, que é o alvo de qualquer ajuste estrutural.
A equação se torna mais estreita diante dos compromissos já assumidos pelo candidato, como a manutenção dos programas sociais existentes e da regra de reajuste do salário mínimo. Em um orçamento federal dominado por despesas obrigatórias, conciliar corte expressivo, preservação de transferências e redução de tributos limita as alternativas de execução. Defender o ajuste é legítimo. A dificuldade está em demonstrar como ele será feito e quem arcará com seus custos.
Riscos distintos e o mesmo teste de governabilidade
As duas narrativas distribuem riscos de maneira diferente. Lula precisa evitar que a experiência seja lida como desgaste ou incapacidade de responder a demandas novas. Para isso, terá de reconhecer insuficiências sem desautorizar a própria trajetória e oferecer razões para um novo mandato, e não apenas justificativas para os anteriores.
Flávio enfrenta o problema oposto. Cabe a ele mostrar que sua candidatura não se esgota na rejeição ao PT nem se resume à reedição do governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, associação que a campanha adversária explora. Segundo o Datafolha, esse fator tem peso, já que um em cada quatro eleitores do senador declara votar nele para derrotar Lula. Uma alternativa só convence quando vem acompanhada de prioridades claras, equipe definida e compromissos verificáveis.
Ambos esbarram no mesmo limite institucional. O Congresso eleito em 4 de outubro dará ao PL as maiores bancadas das duas Casas a partir de fevereiro de 2027, com 121 deputados e, segundo as projeções, 28 senadores. A federação liderada pelo PT terá 88 deputados, e o partido, nove senadores. Nenhuma legenda terá maioria isolada.
Para Flávio, a força do PL é ponto de partida, e não garantia. Parte central de sua agenda depende de emendas constitucionais, entre elas a que pretende apresentar antes da posse para cortar despesas e enxugar a estrutura ministerial e a de sua autoria que extingue a reeleição. Uma PEC exige o voto favorável de três quintos dos membros de cada Casa, em dois turnos, o equivalente a 308 deputados e 49 senadores.
O presidente eleito não tem poder de iniciativa antes de assumir o cargo. Uma PEC apresentada na transição precisaria ser subscrita por ao menos um terço dos deputados ou dos senadores e votada pela legislatura atual, cuja composição difere da eleita. Foi esse o percurso da PEC da Transição, negociada pela equipe de Lula com o Congresso em fim de mandato e promulgada como Emenda Constitucional 126 em dezembro de 2022.
Para Lula, o quadro parlamentar seria mais adverso que o encontrado em 2023. Um eventual quarto mandato começaria com bancadas do próprio partido menores que as do principal partido de oposição nas duas Casas, o que elevaria o custo de aprovação de qualquer agenda e a dependência das legendas de centro. A experiência de articulação ajuda, mas não dispensa a negociação permanente de maiorias.
O eleitor não escolhe apenas entre passado e futuro
Experiência e mudança, nesta eleição, funcionam menos como polos opostos do que como dois modos de convencer o eleitor de que determinado candidato responderá melhor às suas expectativas.
O legado tem a vantagem de poder ser confrontado com resultados observáveis. A promessa de mudança oferece resposta a frustrações que a situação atual não resolveu. Nenhuma das duas, isoladamente, assegura uma boa escolha, porque a experiência pode servir de justificativa para a inércia, e a renovação pode encobrir improviso.
Cabe ao eleitor avaliar o que cada candidatura se compromete a entregar, como pretende financiar suas propostas, quais grupos serão beneficiados ou onerados e de que forma o governo prestará contas. Com 6% dos eleitores admitindo rever o voto até 25 de outubro, Lula terá de demonstrar que sua experiência se traduz em respostas a problemas persistentes. Flávio, que sua proposta tem prioridades, instrumentos e custos identificáveis. O critério decisivo está na capacidade de converter compromisso de campanha em política pública sem sacrificar a responsabilidade fiscal, a proteção social e o funcionamento das instituições. Esse será o parâmetro de avaliação do próximo governo a partir de 2027.
*A opinião do autor desta coluna não necessariamente reflete a posição deste editorial. Leituras sobre dinâmica política e institucional apresentadas neste texto, quando não amparadas em documento público, são de responsabilidade do autor, apuradas diretamente junto a fontes ligadas ao processo legislativo.
Por Daniel Duarte Lledó (Diretor de Relações Institucionais e Governamentais & Políticas Públicas da DataPolicy).
Créditos da Imagem: Lula Marques/Agência Brasil.
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